TREZE

Uma noite havia se passado desde o incidente com o oráculo. O príncipe se encontrava um tanto debilitado e Anabelle e Alexander ainda precisavam digerir tanta informação nova. Os dois deixaram Ryan em segurança e partiram para o refúgio das antitribu.

Agora, tempo demais havia passado e nem o Toreador, nem a Lasombra tinha disposição para desperdiçar outro segundo na busca por suas Senhoras. Seguiram para o novo esconderijo do príncipe e praticamente exigiram uma audiência. Após alguma burocracia, o Ventrue aceitou recebê-los, afinal, participaram de seu salvamento.

Apesar de ser uma mansão bem óbvia em Manhattan, a residência estava bem protegida. O último Tremere vivo na cidade, Horacius, podia ser um iniciante, mas sabia um bocado de encantamentos para proteção. Assim, ao entrarem, os visitantes precisaram passar por um labirinto de portas e algumas passagens secretas que só se abriam ao completar textos rúnicos com o próprio sangue, dentre outras artimanhas.

No centro de todo aquele maquinário místico, Joe Sicada, o xerife, cujo rosto parecia com um boneco de “Comandos em Ação” após uma viagem pela churrasqueira, além das demais cicatrizes, emanava orgulho por ainda poder guardar a última porta. Quando a dupla passou, um olho leitoso e amarelado virou-se inutilmente para eles, como se pudesse ver alguma coisa, ele fungou e franziu o cenho em desaprovação, mas se manteve calado, desta vez.

- Bem vindos – o Ventrue anunciou de seu “trono”, uma cadeira de couro de escritório atrás de uma escrivaninha cheia de mapas e papéis.

- Vejo que está bem, príncipe Ryan – Anabelle respondeu.

- Sim. Brujah verdadeiros podem curar muito melhor que os igualmente lendários Salubri, apesar de que o preço – ele pareceu devanear, tristemente.

- Majestade, precisamos que nos diga como podemos salvar nossas Senhoras, Samanta e Alessa!

- Esqueça-as, jovem!

- Não posso! Não podemos – ela se corrigiu.

- E pretende jogar sua vida nas garras de algum ser terrível que provavelmente nem irá matá-la, apenas brincar e torturar sua carcaça até sua consciência abandonar o corpo? Os Tzimisce podem te transformar em uma desprezível obra de arte satânica!

- Eu não ligo – sua voz estava chorosa e saía com dificuldade –, prefiro morrer a perder Samanta para sempre!

- Eu não posso permitir mais baixas. No momento estamos lutando contra as ameaças do Sabá. Assim que eles desistirem, poderemos ter paz em nossa Sociedade.

- Paz? E eles ficarão livres, sem nenhuma retaliação?

- Vivemos pela ordem, não pela vingança. Uma guerra só vai trazer mais perdas e dor. Além do quê, poderia acabar revelando nossa existência pelo uso indiscriminado, aberto e consecutivo de dons. Mesmo para meu poder, não há como refrear todos os meios de comunicação mortais.

- Então quer dizer que perderemos nossas Senhoras em vão?

- Não, criança. Sua Senhora foi perdida no momento em que foi levada pelo Sabá. Eu também fui. Delfin foi uma tola... Grande tola – ele mordeu o lábio inferior nervosamente.

- Isso não é verdade! Ela... Ela o amava! E, pelo visto, vossa majestade também a ama!

- Meus sentimentos de nada são relevantes, frente à sobrevivência de nossa espécie. Não seja infantil e egoísta, aprenda que tudo que fazemos tem um propósito!

- Que propósito? Subserviência?

- Não, criança tola, tudo que fazemos é pela Máscara.

Anabelle estava destruída por dentro. Esse era o motivo pelo qual ela e Samanta se tornaram antitribu. O Sabá desprezava a Máscara e queria que o mundo sofresse o terror da noite eterna, como na Idade das Trevas. A Camarilla, por outro lado, existe desde a era Vitoriana, através do Pacto das Rosas, para que a coexistência fosse possível.

Neste momento, tudo que a Lasombra desejava era que uma guerra contra o Sabá fosse declarada e se iniciasse uma caçada de sangue. O aperto que sentia em sua cadeira de rodas provava que Alexander sentia o mesmo.

Consternados, os dois saíram noite a fora, sem rumo, sabendo que só poderiam contar um com o outro para o resto de suas breves existências, pois não importava como, eles satisfariam o único desejo que queimava em seus corações: vingança.


~FIM DA CRÔNICA~

DOZE

- Olá.

A voz veio do nada e assustou o rapaz que se esgueirava pelo corredor medievo. Um timbre suave com salpiques melodramáticos ecoavam nas pedras, até que o silêncio retornou.

- Quem está aí?

- Sou seu anfitrião. O que buscas em minha morada?

- Vim porque preciso de conhecimento para encontrar uma pessoa.

- Hmmm... compreendo – a voz sussurrava como um amante latino, suave e sedosa.

- Será que poderia me indicar o caminho para, então, conversarmos?

- Ah, mas é claro! Onde estão meus modos? É só seguir em frente!

Alexander se preocupou, afinal, seus companheiros deveriam estar trilhando os caminhos errados. Com um pouco de culpa e apreensão, ele perguntou:

- Os outros... para onde estão indo?

- Ah, não se preocupe com eles. No fim, todos vamos para o mesmo lugar!

Algo nesta sentença o incomodou, assim como tudo ali o incomodava. Cada pedra e archote oscilava, como a forma instável de Afif. Além disso, o fogo que crepitava não parecia emitir calor, a não ser que sua mente divagasse um bocado. Ele contiunuou até chegar a uma nova sala e a voz retornou:

- O que está disposto a oferecer pela sua busca?

- Aquilo que preciso for. Alessa é tudo para mim!

- Mesmo que tenha de sacrificar seus companheiros?

- Como assim?

- Olhe para baixo.

No meio da sala, havia um buraco, onde estavam Anabelle e Afif. Entre eles e Alexander, uma grade feita com barras de prata maciça, além, algo rubro brilhava e crepitante. Os dois gritaram desesperados ao avistar o Toreador.

- Alexander – Anabelle choramingou – nos ajude! Está quente!

- Seremos queimados vivos – Afif completou.

- Vai mesmo sacrificá-los? Se aceitar, os dois morrerão, mas você terá suas respostas!

Alexander não entendia. Não estava quente, como deveria parecer aos dois ligeiramente abaixo, tudo oscilava. Uma incrível dor de cabeça e náusea lhe consumiam, não conseguia manter os olhos abertos, era como estar em um navio, mas sem sentir o movimento náutico, apenas as oscilações, como se a imagem frente a seus olhos fosse sumir a qualquer momento.

- PARE – implorou.

- Oh, pobrezinho, não aguenta vê-los morrer? Também pode salvá-los e ir embora agora mesmo. Viverem felizes para sempre em vossa ignorância!

- PARE COM ISSO!

- Vamos, não sejais rude!

- Pare... PARE DE ME ILUDIR!

O rapaz reabriu os olhos e sentiu algo ebulir em suas veias. O esforço fora tanto que seus olhos se injetaram de um líquido rubro, mas sua têmpora pôde se acalmar e as veias dilatadas foram, aos poucos, voltando ao normal. Tudo à sua volta que oscilava começou a evanescer, até que ele se viu no cômodo original em que entrara, a porta retornou para trás de si e Afif e Anabelle estavam, cada um, a seu lado, entretanto, desmaiados.

A sala de estar estava, de fato, decorada em estilo europeu. Várias portas ali deviam dar acesso aos outros cômodos da casa e uma escada de madeira levava ao andar superior. Nela, um homem perplexo encarava o Toreador. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo e de resto trajava um pomposo roupão. Apesar da roupa excêntrica, seu rosto lembrava os hispânicos, um tanto bronzeado e uma barba milimetricamente elaborada.

- O quê? O que você fez – Alexander perguntou, ofegante.

- Não se preocupe, eles vão ficar bem – o homem se recompôs – e você, creio que vieste pelo oráculo, certo?

- Que outro motivo?

- Não sei, talvez um chá amigável – ele sorriu maliciosamente.

- Pare de importunar os convidados, Ramirez.

Uma nova voz surgiu do andar superior e passos condenaram que alguém descia as escadas. Pelo que soou, devia ser uma mulher forte, pois a voz era potente e a ordem se fez obedecida de imediato, provocando, inclusive, um arrepio em todos ali.

Após alguns instantes, uma mulher de camisola ou algo do gênero, que lembrava uma vestimenta grega antiga, porém, rosada, desceu os último degraus, passando por Ramirez e se dirigindo aos visitantes. Seus olhos eram brancos, como se ela enxergasse além de tudo e todos, ou por entre eles.

- Dizei-me teu nome, jovem, e o que procuras.

Com um aceno, os dois corpos inertes levitaram e voltaram a ficar de pé. Era um movimento estranho, como se fossem “rebobinados” no tempo. Logo depois, eles abriram os olhos e arfaram desesperadamente, mas após uns instantes, se recompuseram.

- Preciso saber onde está Alessa. E, se possível, como salvá-la.

- Escutai. Assisto o tempo e tudo vejo, mas nada posso fazer por aqueles que já não pertencem ao presente.

- Isso quer dizer que ela está...

- Ela não mais pertence ao presente. O que não significa que não poderia pertencer a teu futuro.

- Apenas uma existência levada pelo Sabá continua no presente, mas algo interfere em minha contemplação e não consigo definir sua identidade.

- Toda primogene da Camarilla foi levada ou morta pelo Sabá – Anabelle interrompeu – seria possível que Samanta, a Lasombra antitribu, ainda esteja viva?

- A existência a que me refiro também não responde por este nome.

A tristeza novamente consumiu a garota. Os olhos dela se encontraram com os de Alexander, e ele apertou a mão em seu ombro para confortá-la. Com os dois ocupados, Afif tomou a palavra:

- Sábio oráculo, como posso curar...

- Como não provaste teu valor, não permitirei que faças perguntas.

- Provar meu valor? E a resposta que deu à esta garota?

- A resposta dela completava a pergunta feita originalmente pelo rapaz.

- E como alguém pode provar seu valor passando por uma ilusão imbecil de um Ravnos?!

- Não fale mal de Ramirez. Ele pode ser um tanto brincalhão e ingênuo às vezes, mas compartilha de minha sabedoria. Não menospreze a esperteza de um Ravnos só porque és uma cobra ardilosa!

Ao ouvir aquilo, Afif se enfureceu, tomou impulso e avançou para o oráculo, iniciando sua transformação em cobra, mas no meio do salto, congelou em pleno ar. Como se o tempo regredisse, ele voltou à forma humana, mas não como o adolescente loiro, era um bebê. Ao perceber o espanto dos demais, o oráculo respondeu:

- Alguns cainitas confundem amor e ignorância. Nu’man estirpou o próprio filho da barriga da mãe, assassinando-a no processo. Deste ato violento, nasceu algo puro, Afif, que significa casto. Ele criou o bebê por alguns meses para se tornar uma oferenda a Set.

Os ouvintes encaravam a cena com asco, mas aqueles olhos profundos só pareceram devanear nas memórias, até prosseguir:

- Nu’man conseguiu sua dádiva de vida eterna com um vampiro muito cruel e sádico. O preço não envolvia um ritual místico, apenas fazia com que seu sucessor se tornasse algo tão demoníaco quanto ele. Entretanto, Firas começou a sentir remorso em seu último resquício de humanidade. Então, enquanto esta criaturinha ainda sangrava no altar, ele a transformou.

- Isso é...

- Ele amava a esposa e amava o filho. Mas a cobiça de juventude e lonjevidade eternas foi maior.

Um minuto de silêncio se instaurou, enquanto Ramirez levava o corpo inerte de Afif para fora da casa. E então foi Alexander que continuou:

- Não entendo como uma pessoa pode não existir no presente, mas sim, no futuro.

- Um ser humano deixa de existir quando vira vampiro, assim como o vampiro que não existia passa a existir quando deixa de ser humano. É a troca universal de forças.

- Desculpe minha indelicadeza, mas a senhora é mesmo um oráculo?

- Sou – ela deixou escapar um sorriso – apenas por definição, ou pela ironia de meu nome ser Delfin. Oráculo é aquele que contempla a existência e é exatamente o que faço. Entretanto, se quisesse definir minha espécie, não sou diferente de vocês.

- Mas não existe nenhum clã ou vampiro específico que possa ver o futuro – Anabelle interveio.

- Existem muito mais coisas entre o céu e a terra que compreendem vossa vã filosofia.

- Shakespeare não explica... Espera, está dizendo que a senhora é um fantasma do passado?

- Precisamente! Aqueles do meu clã, devido a seu mal temperamento, abandonaram as raízes verdadeiras de seu poder. Eu creio ser a única remanescente desta geração, pelo menos, nos Estados Unidos.

- Mal temperamento? Uma Brujah?!

- Acertou novamente, minha jovem.

- Tudo bem que eles são rápidos, fortes e intimidadores, mas... ver o futuro?

- Posso fazer muito mais que ver o futuro. Graças ao dom que chamamos de temporis, consigo viajar no tempo, mas é algo muito perigoso. Meu poder tem poucas limitações, mas se usar desmedidamente, posso acabar destruindo meu próprio corpo.

- Não seria possível voltar três dias no tempo para salvar Alessa e Samanta? – Alexander implorou.

- Não.

- Droga! Alessa e Samanta estão perdidas em algum lugar e não há mais nada que possamos fazer?

- Até o príncipe Ryan foi levado, não temos ninguém mais a quem recorrer – Anabelle suspirou.

- Ryan! – ecoou Delfin – Ele também foi levado?

- Sim, foi um dos primeiros, sinto dizer.

Delfin parecia um tanto abatida após a notícia. Ela devia ter pulado essa parte em sua inspeção temporal, ou o que quer que fosse, devia ter algum histórico com o príncipe.

- Você está bem?

O oráculo ignorou a pergunta de Alexander e se prostrou de joelhos aos pés da escada. Seus pulsos se abriram e sua vitae começou a escorrer pelo chão, mas sem se espalhar. De alguma forma, parecia que estava se aglomerando e tomando forma. Alguns instantes depois, era possível identificar o corpo do príncipe estirado à sua frente. Vários indícios de mutilação e decomposição revelavam o quão terrível poderia ser o Sabá.

Após a conclusão do transporte, Delfin passou as mãos pelas feridas, fazendo com que o corpo se recuperasse naquele efeito de “rebobinar” o tempo. Quando o príncipe abriu os olhos ela cumprimentou:

- Bem vindo de volta, meu querido Ryan. Foi para este momento que vivi. Estou satisfeita de ter podido salvá-lo, assim como fizera por mim há tanto tempo!

- Não!

Essa foi a única palavra que o príncipe pôde dizer. Como resultado do uso indiscriminado de seu dom, Delfin, já com as veias secas, começou a esfarelar aos poucos. Com suas últimas forças, ela colocou um dedo sobre os lábios de Ryan e murmurou:

- É assim que deve ser. Do pó ao pó.

Dito e feito, seu corpo se tornou uma nuvem de poeira no colo do príncipe, cujos olhos estavam enrubecidos e seu rosto se contorcia em um misto de dor, tristeza e cólera.

ONZE

- Já estamos rodando há meia hora e nenhuma pista do oráculo – Anabelle encarava Afif, exasperada.

- Por acaso achou que teria um letreiro luminoso assinalando sua residência?

A voz do garoto tinha a predominância juvenil, mas um tanto potente para a idade que aparentava. Ele falava com uma sabedoria estranha, como se já vivesse há mais tempo mesmo que Anabelle. A frieza com que cospia as palavras e o fraco sotaque árabe que as acompanhava, davam a ele uma aura assassina, daquele tipo de criança que, por viver próxima aos conflitos religiosos do Oriente Médio, possui uma visão banal dos conceitos de vida e morte.

Nesse instante, porém, quando Alexander voltou os olhos para os dois que discutiam, sem se descuidar do volante, a imagem de Afif pareceu oscilar, como um olograma que perdia força, era como se ele fosse desaparecer ou, pelo menos, mudar de forma. O Toreador esfregou os olhos e se concentrou na pista, novamente, limitando-se ao desabafo:

- Então, o que sugere que façamos?

- Vire a próxima à esquerda e estacione.

Assim, ele obedeceu. Todos desceram do carro e se dirigiram a um lugar festivo, de cores vibrantes. À noite, as luzes dos postes diferentes dava uma iluminação parca, que convidava mais às lojas que se apinhavam sobre a calçada.

- Chinatown?!

- Sim. Setitas e Assamitas não são os únicos seres da noite que provem do leste. Portanto, fiquem calados. Não podemos sentenciar nossas mortes por bocas grandes, certo?

Os dois, resignados, mantiveram silêncio enquanto caminhavam para uma portinhola ornamentada a um canto. A imagem de Afif voltou a tremular, mas desta vez, ela não voltou ao normal, ao invés disso, retornou ao foco como um oriental de meia idade. Deixando perguntas para depois, eles continuaram.

Uma vez dentro, parecia ser uma loja de produtos fitoterapêuticos, com várias plantas e raízes pendendo do teto ou em potes ou sacos nas estantes. O cheiro de coisa verde agrediu as narinas sensíveis dos visitantes. Ao fundo, sobre uma mesa de madeira velha, um homem de aparência ainda mais senil triturava algumas ervas em um equipamento arcaico que envolvia uma roda de pedra e uma madeira escavada.

- Sifu ancestral – Afif chamou com uma voz diferente, um tanto aguda, mas rouca, ele realmente sofrera alguma metamorfose.

- Precisa de algo?

- Vim buscar vossa sabedoria, honorável sifu.

O velho levantou sua cabeça e colocou os óculos que estavam repousados sobre a mesa. Sua aparência era inofensiva, mas havia algo de misterioso sobre ele. Quando ele moveu sua cabeça e deixou a luz escapar do seu objeto de estudo, várias centopéias cintilaram, dependuradas em fileiras atrás de si. Seus lábios se volveram em um sorriso desdenhoso e ele advertiu com seu forte sotaque chinês e falar cantado:

- Pare de enganar a si mesmo, gweilo.

Afif pareceu entender o que o herbalista pretendia com aquelas palavras estranhas e voltou à sua forma de criança.

- Eu não consigo enganar um kuei-jin, como era de se esperar.

- Seu cheiro, tudo em você, grita sua essência. Mas ainda não ouviu meu conselho.

- Prefiro ficar nesta forma, se não se importa.

- Não há problema, jovem cataio.

- Viemos à procura do oráculo, sabe de sua residência?

O sorriso se revolveu um pouco mais, mostrando os dentes amarelados do kuei-jin e deformando sua pele enrugada. Seus olhos cintilaram à fraca luz, mostrando-se leitosos como os de uma aranha. Mesmo por detrás dos óculos, cicatrizes evidenciavam que essa condição era devido à várias tentativas de arrancá-los, ou de lutas contra oponentes de unhas bem utilizadas.

- Muitos procuram por uma sabedoria que não podem ter e tantos se perdem nos caminhos de P’o. Se seu Hun não tiver força, tudo que lhe espera é a “morte final”, como vocês, gweilo, chamam.

- Aqueles que sucumbem ao caminho de P’o é quem pretendemos enfrentar, no entanto, precisamos de conhecimento para tal.

- Ha! A ignorância de um cataio só pode ser medida pela sua idade!

- Por favor, kuei-jin, seja razoável.

- Se o que chama “ser razoável” é mandá-los para a forca, pois bem. Siga até o coração de Chinatown. Tenha cuidado com os youkai que vivem por ali, com sorte não vão encontrar nenhum hoje. Há uma casa abandonada em estilo ei, se souber ver, verá! Agora saiam da minha loja, estão atrapalhando a clientela.

Por mais que olhassem, o lugar estava vazio, mas nada impedia que o kuei-jin estivesse se referindo a algo que eles não podiam ver, ou decorresse de alguma loucura dele.

Os três saíram e seguiram pela noite. Quando chegaram ao centro de Chinatown se depararam com nada mais que construções com detalhes orientais, uma delas até possuía um laguinho de carpas na entrada, o que chamava um pouco a atenção.

- O que ele quis dizer com estilo ei? – Alexander disse sua primeira frase desde que entraram no bairro.

- Hmm... Creio que seja estilo britânico.

- Como? Britânico?

- Sim.

- E como acharemos uma casa britãnica em Chinatown? Está louco? Vamos voltar – condenou, Anabelle.

- Ora, não há como receber uma resposta direta de um kuei-jin, da mesma forma que não há resposta direta de um oráculo!

- E que diabos é um kuei-jin, aquele cara parecia perigoso, de certa forma – questionou, Alexander.

- Kuei-jin é um... Hmmm... “Vampiro do oriente”, ou algo assim. Eles nos chamam de cataios.

Alexander e Anabelle ficaram perplexos com a novidade, isso colocava em dúvida a veracidade da teoria do Pai Sombrio, mas não era hora para pensar nestas coisas e eles preferiram entender que vampiro era só uma designação forçada pela falta de termos para traduzir aquele vocábulo específico.

De certa forma, Alexander sentiu-se menos ignorante, uma vez que Anabelle também não conhecia este lado das conexões noturnas, entretanto não pôde se vangloriar por muito tempo, pois outra coisa atraira sua atenção. A imagem de Afif ondulava outra vez, mas ele não parecia tentar se transformar em algo, mas ponderava sobre onde deveria ser a residência. Tomando um novo ângulo, o Toreador percebeu que o garoto não era a única coisa que ondulava, mas a construção com o lago também parecia irregular e, de alguma forma, emanava uma espécie de aura que ele não conseguia distinguir.

- Ei, vocês estão vendo algo de errado com aquela casa?

Ao questionamento, os outros dois pareciam um tanto incrédulos, mas então algo ocorreu a Afif:

- Claro, como não pensei nisso antes! Uma ilusão! Não há como ver através dela se for muito forte, mas é possível detectá-la após algumas evidências.

- Sim, evidências que apenas alguns de nossa espécie conseguem decifrar após muito estudo – ressaltou Anabelle.

- Ou que alguns de nós herdam de seus Senhores e acabam usando em momentos aleatórios – Afif encarava Alexander com um brilho no olhar –, como quando se deparam com coisas sobrenaturais muito poderosas, a ponto de fazer o poder ebulir de sua vitae!

Anabelle juntou-se a Afif para encarar o Toreador que parecia ser o único a não compreender o comentário, mas não se importou, estava acostumando à ignorância. Entretanto, parecia ter descoberto o segredo por trás do mistério da construção e se sentiu satisfeito consigo mesmo.

Após alguma investigação por parte do Setita, os três bateram à porta da casa. Após alguns minutos de espera, a porta se abriu sozinha e eles entraram na sala escura para, então, ouvir o clique da porta se fechando atrás de si.

Ao estender a mão para reabrir a maçaneta, Alexander reparou que a porta não estava mais lá e, para piorar, a sala também havia se modificado. Eles estavam em um cômodo de pedras que lembrava calabouços de castelos em filmes hollywoodianos, iluminado por archotes flamejantes e culminando em um corredor.

Sem muita escolha, seguiram pelo caminho que o que quer que fosse tinha escolhido para eles, até chegar em uma espécie de cruzamento, onde o caminho se dividia em três. Afif se precipitou para a esquerda e a passagem se fechou atrás dele. Com um aperto no coração, Alexander se separou de Anabelle, seguindo reto e a Lasombra projetou sua cadeira de rodas para o caminho da direita.

DEZ

Nu’man, o nome árabe para sangue, e Firas, perspicácia, caiam como uma luva naquele homem. Sua natureza predativa era salientada pelos olhos e língua ofídios, os movimentos graciosos tinham um quê reptiliano e voraz. Do ponto de vista leigo, esse tipo de vampiro não seria muito diferente de um advogado ou vendedor de enciclopédias, mas a aura que eles emanam é como a sensação de ser observado nas ruelas desertas dos guetos do brooklin à noite: puro medo e tensão.

- Creio que esteja ciente das últimas movimentações da “Sociedade” – Anabelle quebrou o silêncio, salientando a última palavra, onde subentendia-se “sociedade vampírica”.

- Meu conhecimento não é infinito, mas bem vindos são vossos apontamentos.

Alexander, a este ponto, começava a absorver essa realidade paradoxal dos vampiros. Os mais velhos possuíam um jeito curioso falar, ele presumia, pois todos aqueles com prováveis centenas de anos falavam uma mistura de gírias e colóquio formal pré-renascentista. Este exemplar era ainda mais curioso, pois adicionava o sotaque árabe à mistura, tornando tudo mais surreal do que poderia.

Neste momento, lhe ocorreram pensamentos sobre como os mortais não percebiam estas nuances, mas era fato que há um vel que mesmo eles recusam a transpor com seus olhos inebriados na sua própria ignorância tecnicista, afinal, só se acredita em mitos quando criança, senão, deveria discriminar falta de juízo ou bom senso ao sujeito. Entretanto, os pensamentos morreram e se dissolveram no conteúdo da conversa, que, de fato, era mais urgente.

- Os mais velhos foram levados pelo Sabá. Alguns foram mortos, outros simplesmente desaparecidos.

- Isso nada me adiciona, pequenina – ele sibilou a última palavra com uma língua viperina e vulgar a lhe escapar os lábios.

- Era o que eu imaginava. Contudo, precisamos de sua ajuda para encontrá-los, pelo menos uma pista. O que dizem seus informantes?

- Ei, ei, calma aí. E o que eu ganharia além de inimigos mortais? Não é legal ter seu rabo na mira de assamitas sabatistas!

- Não tenho muito que oferecer.

- Então eu não tenho muito como ajudá-la!

- Mas eles podem planejar algo contra os Independentes também. Até nós, os antitribu, fomos vítimas.

- Isso também não se enquadra como novidade. Me espanta os antitribu não serem as primeiras vítimas destas caçadas. E se eu não tomo partido, não tenho com o que me preocupar.

- Eles levaram – Alexander começou a murmurar para si e, quando percebeu, já estava gritando – ELES LEVARAM ALESSA!

Os olhos do Toreador enrubeceram e ele parecia que ía chorar, mas se conteve, encarando o anfitrião que, por sua vez, parecia uma flor, murchando lentamente.

O silêncio reinou por alguns instantes, era como se a pergunta de um mero estudante primeiranista pudesse fazer o professor Stephen Hawking ficar sem palavras frente a um debate sobre física. Firas meditou por uns instantes antes de prosseguir:

- Quando?

- Perdi a noção de tempo, mas creio que foi há uns três dias – o rapaz respondeu resoluto.

- Eu não imaginava que ela havia se tornado a primogene Toreador tão jovem.

- Por favor, nos ajude, eu temo por ela.

- E eu não sei o que faria sem Samanta – concluiu, Anabelle.

- Está certo. Apesar de muito me angustiar, tomarei partido de tal mágoa. Entretanto, dizei-me, jovem, por que preocupai-vos tanto com aquela senhorita?

- Ela me fez – disse sem escolher as palavras que, pelo visto, causaram certo desconforto em Firas, mas não lhe ocorria termo melhor ou mais correto, até que se lembrou de ouvir Anabelle e se corrigiu – é minha Senhora.

- Vejo. Então o sangue de mademoiselle corre em suas veias. Isso explica o porquê de alguém tão sedutor que nem precisaria de maiores motivos, causar em você um desespero ainda maior do que o esperado.

Essa oscilação de vocabulário era um tanto irritante, como se as palavras tornassem mais factuais a cada vez que um ancião lembrava da data corrente, voltando ao arcaismo logo em seguida, como se tivessem um mal de alzheimer literário. Apesar disso, Alexander pode compreender a intenção na fala de seu locutor e uma pitada de inveja de Alessa tê-lo escolhido ao invés de alguém com mais experiência e, muito provavelmente, um fino apreço bem maior às artes que ela tanto adorava. Agora ele passava a reparar as molduras do escritório, contendo complicadas partituras de jazz e retratos pintados de famosos compositores através dos séculos e, muito provavelmente, eram os originais.

- Cada minuto que perdemos é vital para a sobrevivência de minha Senhora – ele saiu dos devaneios e alertou, desta vez, sentindo-se mais seguro do termo empregado.

- Muito bem.

Firas fez um sinal com a língua e aquilo que sibilava no canto do aposento se revelou como uma enorme cobra de chifres, grande o suficiente para devorar um bovino e fazer juz ao seu outro nome: cobra touro.

O animal era cor de ébano e serpenteava graciosamente até chegar aos pés daquele que reclamou sua presença, atrás da mesa do escritório. Firas tornou a sinalizar com a língua, falando rapidamente em um idioma viperino e algo saiu de trás da escrivaninha: uma criança pálida e loura, os olhos azuis e bochechas levemente coradas, não parecia um vampiro, tampouco humano.

- Este é Afif, ele irá convosco.

- Espere, ele não era... era?

A confusão de Alexander divertiu firas, mas não por tempo suficiente, ele prosseguiu:

- Há um oráculo em New York, isso é novidade! Mas como todo oráculo, é de difícil acesso, além de haver provações para agraciar-vos com as respostas. Algo sobre “tornar-se merecedor”...

- Onde poderemos encontrá-lo?

- Ora, onde mais? Em Manhattan, claro!

- Onde, especificamente, senhor trapaceiro – acusou, Anabelle.

- Ora, vamos! Não julgue os Setitas como Ravnos! Podemos ter certo parentesco com cobras, mas levamos a sério nossos negócios. Além do quê, eu jamais mandaria meu filho – ele parou momentaneamente como se tivesse pronunciado algo que não devia, mas fora uma fração de segundo em que ele vacilou e continuou como se nada tivesse saido de anormal – em uma missão suicida. Eu não sei ao certo, mas quando chegarem, saberão.

- Setitas? Ravnos?

- São os clãs independentes, meu rapaz! Por acaso nasceste à alvorada?!

- Não, mas ele é novo nisso tudo, tenha paciência – Anabelle defendeu.

Com algumas novas reclamações do Seguidor de Set a respeito da inaptidão de Alexander e alguns comentários salvos para si de que Alessa fizera mau juízo ao escolher um neófito para si, os três seguiram para a pick-up, passando novamente pela música alta que, desta vez, parecia mais alegre e descontraída, e os motores roncaram rumo à Manhattan.

NOVE

Já devia passar das 22h, pois a escuridão da noite envolvia mais que o brilho das estrelas e o pressentimento de perigo nas ruelas da metrópole ecoava no coração dos indefesos. Depois de tanto tempo dormindo, fraca e atordoada, Anabelle fitou, através da fresta formada por suas pálpebras relutantes, devido à dor de cabeça, o quarto escuro que lhe era tão nítido quanto um dia ensolarado é para um mortal.

Nada parecia ter mudado desde a noite anterior, exceto que agora sua Senhora fora raptada e a dor remoía em seu peito. Entretanto, apesar das aparências, algo mais havia mudado, pois não era apenas o sentimento de dor que transbordava em seu seio infante. Retomando a consciência, levantou o corpo e virou-se para o lado onde um jovem vampiro se debruçara à beirada da cama e aos poucos deslizara para o chão, apesar de ainda pender a cabeça inutilmente apoiada nos lençóis.

Anabelle esticou sua mão, mas a fraqueza tomou conta novamente e ela vacilou, caindo sobre Alexander, que acordou abruptamente com o impacto.

- Ai, você está bem – ele arquejou.

- Me... sinto muito – ela respondeu constrangida.

- Não se preocupe, o que importa é que você esteja bem. Vou buscar sua cadeira.

O rapaz seguiu até um canto do quarto e, quando voltou, ajudou Anabelle a se acomodar em sua cadeira de rodas.

- Não precisa se incomodar comigo – ela disse, ruborizando desta vez.

- Sinto-me mal por trazer tanto transtorno. Minha visita só lhe trouxe maus auspícios e eu posso entender o que está sentindo de uma forma tão profunda que nem eu mesmo conseguiria explicar.

- Não – ela começou, mas não queria dizer “não, sua visita não trouxe apenas coisas ruins”, ela refreou, poderia soar estranho.

- É difícil aceitar, mas – ele escondeu a leve irritação ao falar, como se ela não se importasse – eu também perdi Alessa – a menção do nome doeu, mas ele novamente se mostrou forte e absteve de demonstrações – e estou sofrendo o mesmo que você.

- Me desculpe, eu não pretendia... Bem, poderia, por gentileza, me levar ao closet? Preciso me arrumar. Peça à Paco que lhe arrume algumas roupas e eu logo o encontrarei. Preciso... Precisamos – ela corrigiu – nos alimentar também. Portanto, me aguarde à mesa de refeições.

Assim, ele obedeceu. Não lhe ocorrera contradizer, aquela voz era, de fato, hipnótica. Alexander se sentia honrado e cumprir seus caprichos, apesar de não serem, necessariamente, caprichos. Anabelle era delicada e educada ao pedir algo para seu convidado, como se ele não precisasse fazer, mas ele sentia como se devesse corresponder a todos seus ansejos, como uma força invisível que estava aquém deles, portanto não provinha de nenhum poder que a vampireza pudesse usufruir livremente.

Aproximadamente uma hora depois, os dois se alimentavam com sangue comprado de algum hospital, mas que servia a seus propósitos imediatos. A força lhes voltava e a dor de cabeça e visão turva desapareciam. Ambos pareciam encenar um filme de época. Anabelle trajava um vestido preto brilhante, com uma linha de ônix costurada no decote, pendendo sobre o tecido folgado, encimado por uma ècharpe de renda preta em seus ombros. Por fim, uma cruz de ouro pendia em seu pescoço, contrastando com o traje negro, ela continha pedras vermelhas, talvez rubis, cravejando de uma ponta a outra, onde encontravam com pedras azuis como safiras.

Alexander, por sua vez, vestia um terno grafite de tecido italiano texturizado, como se tivesse riscas invisíveis verticalmente. A camisa era vinho e, no lugar da gravata, aquele nó vitoriano que as pessoas usavam como alternativa aos babados, uma fita preta em laço. Seus cabelos escuros estavam amarrados com uma pomposa fita cor de vinho, combinando com a camisa, revelando algumas mechas grisalhas, resultado de seus anos de estudo e preocupação. Os pulsos ostentavam abotoaduras de prata e ônix, que caiam muito bem com aquele terno de alta costura, ele parecia um tipo de lorde renascentista.

Apesar da humildade que o músico transmitia, por causa de suas frustrações, ele era, de fato, muito bonito. Esse talvez fosse um dos pontos principais que levaram Alessa a escolhê-lo. Sua face possuía traços fortes e encantadores que, recobertos pelo brilho de atração natural que os seres da noite emanavam, tornava-se irresistível para qualquer mortal. Naquele momento, no entanto, a única pessoa que poderia contemplar essa magia era Anabelle que, por sua vez, emanava um outro tipo de energia, sombria e atrativa, que lhe tiravam o ar infantil com a sedução de uma mulher infinitamente jovem, era um tipo de lolita gótica, pois além do traje, a maquiagem escura condenava seu gosto pelo preto e suas tonalidades.

Havia uma tensão no ar quando os dois terminaram de se alimentar. O rubor do sangue circulando tingiu a face de ambos e eles se entreolharam, como se fossem conhecidos de longa data há muito separados. Algo como um brilho novo surgiu entre eles, era um laço que se formava, diria um observador mais atento das nuances, os demais apenas veriam o quadro da perfeição, onde dois seres dialéticos entre a treva da essência e a luz da beleza formavam o ying yang máximo e que, se nada mais existisse, não teria sido em vão à contemplação desta cena.

Como se tivesse subentendido, os vampiros se dirigiram à garagem, Anabelle sempre guiada por Alexander, entraram em um dos carros mais robustos, uma pick-up, sem motoristas, apenas os dois sairiam naquela jornada, sem saber se um dia voltariam.

O motor roncou e, instantes depois, estavam a caminho do Brooklin.

- Ventrue, Toreador, antitribu – ela enumerava.

- Todos levados.

- O Nosferatu está desaparecido, talvez levado também. A Tremere está morta, junto de todo o resto.

- Exceto um.

- Sim, exceto o que seguiu com o Brujah.

- Mas ainda falta um, não é?

- Certo. Falta o Malkaviano, mas ele não está mais aqui.

- Como sabe?

- Olhe à frente.

Os dois chegaram a uma residência no Brooklin, aparentemente normal, mas a uma segunda olhada, claro, à percepção vampírica, seu interior crepitava em chamas, tomado pela fumaça escura que não tinha por onde escapar.

- Vamos torcer para que a intuição deles tenha sido mais forte. E apressemos para que não sejamos pego pelo que quer que tenha vindo buscá-los.

O carro seguiu, desta vez, sem rumo.

- Acho que teremos de recorrer a isto.

- O quê?

- Bem, você já sabe que existem duas facções entre nossas famílias, não é?

- O Sabá e a Camarilla, certo?

- Precisamente, mas mesmo em guerras, aqueles que não servem a nenhum dos lados, como são chamados?

- Hmmm... Mercenários?

- Exato. Há aqueles que são neutros e tão poderosos que podem se abster do combate e, em momentos como esses, podem servir ao lado que preferir.

- Isso parece perigoso...

- E é – interrompeu, ela.

- É a única alternativa, não é?

- Ou isso, ou ficamos às cegas esperando um próximo ataque. Siga para o Queens.

- Midnight Heaven – algo fez com que ele dissesse o nome do lugar em que esteve com Alessa em sua primeira noite.

- Como sabia?

- Eu... Não sei. Mas foi o lugar que Alessa e eu fomos após o recital e...

A tristeza tomou conta de Alexander o resto do caminho e Anabelle nada pôde fazer para confortá-lo, além de remoer seus próprios pensamentos em Samanta. Quando chegaram ao pub, a música boa tomou seus ouvidos, aliviando um pouco da dor sentida e levando suas mentes para as urgências imediatas.

Como sempre, a portaria estava cheia e não seria fácil entrar, entretanto não era o que Anabelle parecia pensar quando chegaram próximos ao porteiro. Ele a encarou com alguma surpresa e disse ríspide:

- Crianças não são permitidas.

Ela o encarou por alguns instantes, como se preparasse uma resposta inteligente, mas simplesmente argumentou com a voz mais encantadora do mundo:

- Estou aqui para ver seu chefe, se não for incômodo. Poderia nos levar a ele?

Os olhos do homem brutamontes estavam vítreos e sua boca entreaberta, como geralmente os homens ficam frente às finais do campeonato de futebol, claro, quando ainda há cerveja em seus copos. Ele estava hipnotizado por alguma coisa e Alexander sabia que um homem bronco daqueles jamais perceberia as nuances belíssimas da voz da menina, então teria de ser algo mais. Ele não resistiu e perguntou baixinho:

- Você o enfeitiçou?

Ela deu uma risadinha ao termo místico.

- Pode-se dizer que sim. Só para evitar questionários vãos.

- Entendo – ele ponderou por alguns instantes – isso pode ser feito com – ele pareceu preocupado – um de nós?

- Sim, se o poder for realmente forte, pode. É tudo uma questão de força de vontade, tanto da ordem, quanto da obediência. É outro campo em que o forte vence o fraco.

Ele ficou calado, como se algo lhe ocorresse. Ela, então, percebeu e advertiu um tanto amargurada:

- Não se preocupe, eu não seria tão baixa.

- Desculpe, eu não pretendia. Você foi tão gentil comigo até agora, não sei como pude pensar nisso...

- Está tudo bem, sério. É normal ter cautela. E é aconselhável aumentá-la a partir de agora, nosso amigo é um tanto ardiloso.

- Como assim?

- Você vai entender ao vê-lo.

A música, antes alta demais para a audição sensível dos dois, parecia uma vaga lembrança quando os dois atingiram a parte do andar superior com isolamento acústico. Ali havia um corredor e várias portas. À última, em linha reta, lia-se “Gerência”. O porteiro abriu-a após algumas batidas e os dois entraram sem pestanejar.

O lugar tinha uma iluminação baixa e avermelhada, como um cabaré das antigas, exalava um perfume de ópio e papoula, incensos, algo sibilava a um canto e no centro, uma mesa com uma cadeira à qual o criado sinalizou para que Alexander se sentasse, colocando Anabelle a seu lado. Do fundo mais escuro do aposento, uma figura alta em trajes refinados se aproximou, revelando seu rosto.

O vampiro devia ter 1,90m de altura, pele escura, típica dos povos mezzo-orientais, algo entre o negro e o caucasiano, pardo seria a especificação mais próxima, mas ainda inexata. O corpo era esguio, mas mesmo sob o terno de alta costura, dava a perceber que era um corpo bem treinado. Uma das mãos descansava sobre uma bengala cuja empunhadura era uma esfera de cristal, encrustada em uma madeira escura como mógno e decorada com alguns nódulos de ouro. O rosto do vampiro era comprido e um tanto macilento, apesar de ainda revelar alguma beleza moura. Por fim, no topo da cabeça nua, uma tatuagem de serpente residia nitidamente, enrolando na altura do pescoço, sumindo por debaixo das vestes e terminando na mão livre, onde o rabo da serpente trançava entre os dedos.

A imponente figura se aproximou e os olhos, antes vítreos, de seu empregado se preencheram com um medo fatal. Aqueles globos fendados encaravam o pobre homem que esperava à porta e gaguejava:

- Senhor Nu’man, estes visitantes pediram para tratar com o senhor.

O anfitrião se limitou a sibilar e fazer um gesto com a mão para dispensar o serviçal e se dirigiu aos convidados.

- Então – a voz grossa teve impacto e reverberou no ambiente acústico, como se ele entoasse as palavras carregadas pelo forte sotaque árabe – o que o humilde Firas Nu’man pode fazer pelos seus ilustres convidados – um brilho perpassou seus olhos fendados e ele se sentou, pronto para negócios.

OITO

O espanto do rapaz e sua apreensão para que a jovem dama prosseguisse com sua história faziam com que ele prendesse a respiração e a encarasse sedento por uma explicação, no entanto, ela se limitou a voltar à sua usual falta de expressão e mudar para um assunto que, para ela, seria mais relevante:

- Está tarde.

- Ainda falta um bocado para o nascer do sol, temos tempo.

- Não é isso. Samanta não voltou. Estou preocupada.

Anabelle se dirigiu a uma televisão de 14” no canto da sala, ligou e pressionou alguns botões do console. Alexander percebeu se tratar do circuito interno de vigilância. Ela passava apressada pelos canais, até que apareceu a garagem.

- O carro ainda está lá. Por favor, me acompanhe, será mais rápido assim.

Ele obedeceu e guiou-a até o lugar, seguindo suas indicações. A ânsia fazia sua vitae circular. Se ainda fosse humano, teria de limpar o suor de preocupação que escorreria por seu rosto, mas naquelea forma, era como se seus fluidos corporais tivessem secado para sempre. A pressa foi lhe consumindo e um mau pressentimento, quando percebeu, já estava correndo, as rodas da cadeira de Anabelle rugiam contra o atrito do carpete, denunciando a velocidade, seus cabelos voavam intensamente e ela mesma não parecia se incomodar, era quase como se tranquilizasse de chegar lá mais rápido.

Os cômodos passavam num tipo de câmera lenta, mas a velocidade era fatidicamente alta. Seriam os olhos de vampiro ou outra coisa? Aquela agitação na vitae foi se acalmando à medida que a ânsia do mau presságio lhe consumia, era como uma náusea. A diminuição da resistência do ar indicava que eles haviam parado e quando tomou consciência do ambiente, estavam a alguns metros de distância do vidro fumê da porta do motorista de Samanta.

Anabelle se desvencilhou de seu guia e abriu a porta com uma força que poderia arrancá-la. Era de se espantar que aquela garotinha pudesse ser tão terrível. Um olhar doentio consumiu suas feições e ela ameaçou chorar de ódio, mas antes correu à porta do compartimento traseiro da limusine.

Quando a garota liberou o ângulo de visão, revelou o corpo do motorista ainda segurando o volante. Apesar dos olhos parecerem extasiados de prazer, suas mãos tinham os dedos colados, como se toda a pele fosse uma coisa só, abraçando o volante para jamais soltar. Sua caixa toráxica estava completamente aberta, exibindo os órgãos imóveis, apesar de ligeiramente modelados, passando a idéia de um kit de médico de brinquedo muito mal projetado. A coluna fora fixada no banco, assim como a nuca, amarradas em nós de carne e ossos contra as ferragens do assento. A boca se contorcia em um sorriso doente e os olhos vidrados virados para cima.

A cena era mórbida, mas as feições daquele rosto experimentaram prazer imenso antes da morte. Seria um masoquista? Alexander não conseguia parar de encarar aquele corpo intrigante, apesar do aumento de sua náusea, ele sabia que algo estava para acontecer.

Encarando aquela cena, vislumbrou rapidamente algo que parecia a sombra de uma mão sobre o pescoço do chofer, mas com uma segunda olhada, não havia nada lá. Então, percebeu que os olhos estavam ressecados e piscou, por um segundo ou menos, ao abrir os olhos, pôde ver novamente uma sombra de mão no pescoço, como se tivesse marcas de enforcamento, mas tão brevemente sumira outra vez. Por fim, sua interpretação foi interrompida por um cortante grito de agonia vindo do compartimento trazeiro: era Anabelle.

O jovem Toreador correu até a porta, esperando encontrar mais corpos e o agressor, talvez, mas tudo o que viu foi a garotinha debruçada no carpete do chassi, sobre uma poça vermelha que era rapidamente absorvida pelo tecido macio.

- Eles a levaram – ela gritou – levaram Samanta!

Era de cortar o coração. Sua linda voz definhava em gritos angustiantes, seu belo rosto apertado contra o chão, borrado pelo rubor sanguinolento que parecia aumentar o fluxo e, olhando mais de perto, vertia de seus olhos. A poça era formada pela vitae que escorria de seus olhos incosoláveis. Lágrimas de sangue brotavam entre soluços e sua palidez aumentava.

- Maldito Sabá – ela tentou um novo grito, mas a voz morreu em algum lugar do percurso e ela desmaiou.

Algumas horas mais tarde, os olhos de Anabelle começavam a se abrir novamente. Ela devia estar em sua cama ou era o que lhe parecia. Seus ouvidos capitavam uma linda melodia soando quase como um sussurro ao seu ouvido, na voz grave de um barítono:

“Il dolce suono mi colpi di sua voce, ah, quella voce, m’é qui nel cor discesa. Anabelle, io ti son reso. Anabelle, infanta mia. Si, ti son reso. Fuggita io son da’toui nemeci. Un gelo mi serpeggia nel sen, trema ogni fibra, vacilla it pie. Presso la fonte meco t’assidi alquanto, si, presso la fonte meco t’assidi”.*

A isto se seguiu um vocalize decrescente e ela percebeu se tratar da aria Il dolce suono, de Gaetano Donizetti, apesar de algumas modificações na letra e que originalmente seria cantada por uma mulher de timbre soprano. A nova letra dizia respeito a si e algo a incomodou nisso. Sentia, pela primeira vez, aceitação de alguém que não fosse Samanta.

A garota se moveu, exausta, e o pianíssimo chegou ao ponto da cadência de encontrar o silêncio final, uma mão alisou seus cabelos e a voz retornou, mas falando desta vez:

- Durma, pequenina, o sol já desponta. Quando chegar a noite, será nossa hora. Mas por enquanto, descanse e recupere suas forças.

Anabelle permitiu-se fechar os olhos e sentiu um beijo em sua testa. O incômodo voltou, lembrou-se de Samanta, a única que a acolhera e respeitara em toda sua vida. Desde que viveu enferma em um orfanato, jamais sentiu o carinho de outra pessoa, apenas contatos indiretos e “profissionais”.

Ela sabia que o Toreador estava retribuindo sua hospitalidade, mas algo fazia com que ela quisesse acreditar que havia ternura naquela ação, algo que superava o dever gerado pelo laço de sangue com sua mestra. Ela se sentiu ligada expontaneamente a outra pessoa pela primeira vez e estava relutantemente feliz. Contudo, a exaustão foi mais forte e ela adormeceu enquanto ele afagava as mechas lisas de seu longo cabelo azevinho.


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* Tradução livre, minha: “O doce som de sua voz, eu escuto, ah, aquela voz, tão profundamente imersa em meu coração. Anabelle, eu te sou devoto. Anabelle, minha infanta. Sim, a ti sou devoto. Escapei de seus inimigos. Um arrepio toma meu peito, treme cada fibra de meu ser, meus pés vacilam. Sente-se comigo à fonte um pouco, sim, sente-se comigo à fonte”.


SETE

O carro seguiu noite a dentro e algumas horas de escuridão já haviam passado. Pelo que lhe parecia, Alexander teria de esperar o pôr-do-sol no refúgio de sua anfitriã, caso não quisesse uma morte dolorosa pela luz do astro rei.

Era estranho que uma mansão tão despendiosa como aquela passasse desapercebida, mas, afinal, era Manhattam. Parecia algo obscuro saído de “A Família Addams”, mas ainda tinha beleza em seu estilo gótico, com leves toques de modernismo. Fato era que a residência se fazia se sentir confortável quaisquer nobres do século XVI que, por ventura, fossem transportados aos dias atuais, mas sem o assombro de construir um castelo em plena New York.

Ao entrar, entendia-se que a discrepância temporal era ainda maior. Móveis coloniais suportavam avançados computadores e sistemas de segurança de última geração vigiavam a casa. Câmeras com sensores de movimento os acompanhavam à medida que avançavam enquanto Anabelle indicava o caminho e Alexander gentilmente guiava sua cadeira-de-roda.

Quando finalmente chegaram ao saguão central, sem janelas e com isolamento acústico que daria inveja a qualquer anfiteatro, se depararam com Samanta, que os aguardava de forma pomposa e sedutora. O avantajado quadril que remetia à sua origem espanhola, juntamente com um vestido negro-piche que contrastava sua pele branca e atenuava suas curvas, exercia a função de espartilho e projetava seus seios de forma deslumbrante, para suportar o pesado colar de ônix que ornava seu pescoço. As mãos repousavam sobre as longas pernas alvas e impecáveis, cruzadas uma sobre a outra, enquanto ela esperava naquela poltrona de camurça vermelha. Tudo isso encimado por um olhar profundo de olhos que pareciam buracos negros e que ameaçavam tragar tudo naquela sala para si. Com toda a certeza, aquela energia de atração explicava, Samanta era a Carmen que Bizet teria idealizado nos dias atuais.

- O que traze a mim, minha querida? – ela perguntou com sua voz poderosa de fado-flamenco com a qual poderia arrancar suspiros dos jovens e ordenar aos mais velhos.

- Este cavalheiro é Alexander, señora – Anabelle respondeu com tamanha subserviência que seria difícil imaginá-la novamente desafiando a autoridade do xerife.

- Ah, sim, muito me recorda vossas feições. Sois o filho Toreador.

- Señora, eles a levaram, Alessa.

- A ela também?

- Sim, e assassinaram Corina.

- Céus. Que Deus tenha misericórdia de nossa insignificância. A Toreador, o Ventrue e a Tremere foram levados, nossa cidade está desprotegida sem um príncipe...

- E com um xerife aleijado – completou.

- Certamente, o Brujah será mais um peso do que ajuda, neste momento. O Gangrel, creio, não se encontra, devido à sua natureza selvagem. O Nosferatu, o Malkaviano e eu parecemos ser os únicos que escaparam desta abominável caçada de sangue.

- Eu não sei quem é o Nosferatu – Alexander falou timidamente –, mas eles também estão em perdas... Madame – acrescentou.

- Seu nome é Slash, conheces?

- Sim, ele tem cuidado de Ezequiel e sumiu há um tempo.

- Então isso nos deixa com maiores problemas. Uma vez que o Gangrel não será fácil de se rastrear, o próximo alvo será o Malkaviano e, em seguida, devem preparar algo especial para mim, já que sou uma traidora direta do clã das sombras.

- Traidora – a palavra escapou por entre os lábios de Alexander.

- Sim, meu jovem, por quê achas que nos chamam de antitribu? Mera casualidade? Não, somos aqueles que investimos contra o sangue de nosso sangue, é a essência dos cainitas, não é mesmo? Trair seus irmãos em prol e um bem maior, assim como o Pai Sombrio, ele próprio.

- “Pai Sombrio”?

- Às vezes esqueço como os jovens tem perguntas – ela deixou um riso sair, mas escondendo a pitada de desdém, sobreposta por sua ternura quase materna ao responder – vejas bem. Somos criaturas da noite. Há escritos muito antigos e desejados que falam de nossa origem, mas que ninguém sabe ao certo. Acreditamos em nossa descendência por Cain, aquele que matou Abel, na bíblia e, assim, foi exilado e condenado à noite eterna.

- Isso é... incrível – Alexander estava boquiaberto.

- Um Nosferatu me contou que Lilith teria ensinado magika a Cain, que passou aos filhos. Sobrevivemos ao dilúvio, claro, todas as 13 famílias. Mas por divergências, acabamos com algumas brigas internas. Alguns séculos atrás, a Camarilla foi fundada para reunir aqueles mais ponderados entre nós e nos ocultar das caçadas humanas, vivermos no mais próximo do que poderia ser uma harmonia com o resto do mundo. Mas o Sabá pensa diferente e tudo que querem é um reino de terror. Por isso eu e Anabelle largamos aquela seita dos diabos.

- Entendo. Bem, pelo menos seus motivos. A história é um tanto que informação demasiada para deglutir.

- Nem os mais velhos tem certeza. Eu acredito que Deus tenha um propósito para todas as coisas, mesmo aquelas que são malígnas por essência. Entretanto, agora não é o momento para meus devaneios. Fiquem aqui, os dois, eu irei tratar de alguns assuntos e de nossa segurança.

Samanta saiu rapidamente pela direção que eles vieram. Alexander dirigiu a cadeira-de-roda de Anabelle até as poltronas e esta fez sinal para que ele se sentasse. Com a certeza de que todos estavam confortáveis, o assunto desagradável retornou aos semblantes sérios, mas o Toreador optou por uma ligeira mudança de assunto, afinal, ele já estava se sentindo um perito em mudanças de humores e como se safar delas.

- Quando nos vimos pela primeira vez, me perdoe, mas eu ouvi o comentário sobre sua idade. Se me permite a indelicadeza, qual a sua idade... er... humana?

- Treze – ela respondeu imediatamente, como se isso não se importasse, seu semblante impassivo e a voz gélida como os polos.

- Isso quer dizer... – ele não precisou terminar a frase, ela confirmava com a cabeça – mas, por quê?

- Eu tinha uma doença – ela pareceu sonhadora, a primeira emoção “humana” que demonstrava – era incurável – ela olhou para as pernas, os lábios se contorcendo em uma linha – bem, ainda é...

- Sinto muito.

- Não sinta – ela se recompôs – eu fiz a escolha. Não de ter a doença – esclaresceu – mas de me tornar uma cainita. Eu não poderia pedir mais nada de minha vida – ou morte -, posso ler todos os livros que quiser agora.

- Você gosta de ler?

- Muito. É minha razão de existir, na verdade. Eu vivia debilitada na cama de um orfanato no interior de New Orleans. O que é um tanto irônico, pois tudo o que sabia sobre vampiros, na época, se reduzia às crônicas de Anne Rice. Nunca conheci meu pai e tudo indica que minha mãe morreu no parto, pois também devia ter uma doença similar. Quando ele surgiu à minha janela naquela noite, eu pensei que fosse o destino, meu Loui – a expressão sonhadora voltou, acompanhada por um brilho nos olhos verdes.

No momento seguinte, a garota murchou, como se voltasse à realidade. Seus longos cabelos castanho-avermelhados, davam-lhe a impressão de uma folha outonal que caíra, perdendo a vida aos poucos, e agora esperava pelo inverno congelante, e emolduravam o verde ressequido de seus olhos. Ela parecia constrangida por falar tanto de si para alguém que mal conhecia, talvez por simpatizar com a situação do pobre diabo, mas o assunto se estendera demais. Entretanto, isso não foi suficiente para refrear as novas perguntas que o jovem fascinado remoía, ardendo, mais ainda, de vontade de continuar ouvindo aquela voz de veludo. Ele estava hipnotizado.

- “Ele”? Não era Samanta?

- Bem, Samanta cuida de mim, mas não foi ela quem me criou.

- Continue a história ou vai me matar por antecipação!

Ela deu um sorriso constrangido e pensou em continuar, desta vez, ela que parecia notar algo no convidado e, se não fosse pela falta de sangue em suas veias, teria ruborizado.

- Seu nome era Carlos. Ele era um cardeal que visitava os orfanatos procurando por crianças que pudesse indicar para seus contatos. Um dia ele foi até mim e se deparou com minhas leituras. Uma criança de 13 anos trancada em um quarto e presa em sua cama, sem televisão – o que era de se esperar há 40 anos – ou rádio, não havia minigames, muito menos internet. Creio que tivesse lido e memorizado as cerca de 30 obras que haviam me doado.

- Espera. Ele era um padre?

- Você vai entender. Bem, ele se interessou por mim, mas eu já estava desiludida, o médico havia me dado no máximo três meses de vida.

- Que doença era, afinal?

- Bem, eu nunca soube, só sei que era degenerativa, um tipo de câncer, talvez. Na época não era muito comum. Mas Carlos disse que não era para me preocupar, desde que eu concordasse, ele me daria o tratamento que iria me curar. A condição é que eu tinha que obedecê-lo dali em diante e me tornar uma serva do Senhor em sua paróquia, mas eu poderia continuar lendo o que eu quisesse, então eu aceitei. Naquela noite, ele entrou pela minha janela e me raptou, no dia seguinte eu fui dada como morta e, de fato, já estava, mas não inteiramente.

- Bem, ainda não entendo como um vampiro pode ser padre.

- Você acha que o homem é o único ser temente a Deus e capaz de adorá-lo?

- Eu só pensei que vampiros odiassem igrejas e religião, ou algo assim.

- Você odeia?

- Não, mas tenho mais de um motivo para ser agnóstico.

- Mas acredita em alguma coisa, e isso já é o suficiente. Deus se manifesta sob várias formas, por isso existem várias religiões. Claro, essa é uma visão um tanto moderna e Samanta não concorda, mas eu penso que cada um pode ter sua religião, desde que, no fundo, acredite em “Deus”.

- E quanto as cruzes, alho... reflexo no espelho?

- A maioria são lendas, a maioria – ela adicionou com um certo pesar.

- Certo. Ah! Mas tem uma brecha na história. Onde entra Samanta?

- Ela me salvou!

- Te salvou?

- Sim. Ela me salvou do Sabá.

- Eles te atacaram depois da sua transformação, assim como fizeram a mim, e levaram seu senhor? – ele lembrou e afundou na poltrona tristemente.

- Não – ela fez uma pausa e suas feições se apertaram, como se ela negasse o que estava para dizer – ela me salvou do meu senhor.

- Seu senhor é um Sabá?

- Sim. Eu sou uma Sabá, teoricamente, e isso não é aceito, sofro preconceito dos anciãos, mas minha identidade é escondida da prole para que eu possa conviver de forma harmoniosa. Por esse motivo, Samanta não pode gerar mais ninguém. Ela fez um acordo com o príncipe ao me resgatar e para que eu pudesse viver, sacrificou seu legado. Todos ficaram felizes, pois a Camarilla teme que os antitribu ganhem força.

- Mas... desculpe ser insolente, mas por que você dentre todo o resto?

- Bem, o meu senhor é o diácono... uma posição de alto presígio do Sabá, Carlos Tiago Borges, irmão de Samanta.