DOZE

- Olá.

A voz veio do nada e assustou o rapaz que se esgueirava pelo corredor medievo. Um timbre suave com salpiques melodramáticos ecoavam nas pedras, até que o silêncio retornou.

- Quem está aí?

- Sou seu anfitrião. O que buscas em minha morada?

- Vim porque preciso de conhecimento para encontrar uma pessoa.

- Hmmm... compreendo – a voz sussurrava como um amante latino, suave e sedosa.

- Será que poderia me indicar o caminho para, então, conversarmos?

- Ah, mas é claro! Onde estão meus modos? É só seguir em frente!

Alexander se preocupou, afinal, seus companheiros deveriam estar trilhando os caminhos errados. Com um pouco de culpa e apreensão, ele perguntou:

- Os outros... para onde estão indo?

- Ah, não se preocupe com eles. No fim, todos vamos para o mesmo lugar!

Algo nesta sentença o incomodou, assim como tudo ali o incomodava. Cada pedra e archote oscilava, como a forma instável de Afif. Além disso, o fogo que crepitava não parecia emitir calor, a não ser que sua mente divagasse um bocado. Ele contiunuou até chegar a uma nova sala e a voz retornou:

- O que está disposto a oferecer pela sua busca?

- Aquilo que preciso for. Alessa é tudo para mim!

- Mesmo que tenha de sacrificar seus companheiros?

- Como assim?

- Olhe para baixo.

No meio da sala, havia um buraco, onde estavam Anabelle e Afif. Entre eles e Alexander, uma grade feita com barras de prata maciça, além, algo rubro brilhava e crepitante. Os dois gritaram desesperados ao avistar o Toreador.

- Alexander – Anabelle choramingou – nos ajude! Está quente!

- Seremos queimados vivos – Afif completou.

- Vai mesmo sacrificá-los? Se aceitar, os dois morrerão, mas você terá suas respostas!

Alexander não entendia. Não estava quente, como deveria parecer aos dois ligeiramente abaixo, tudo oscilava. Uma incrível dor de cabeça e náusea lhe consumiam, não conseguia manter os olhos abertos, era como estar em um navio, mas sem sentir o movimento náutico, apenas as oscilações, como se a imagem frente a seus olhos fosse sumir a qualquer momento.

- PARE – implorou.

- Oh, pobrezinho, não aguenta vê-los morrer? Também pode salvá-los e ir embora agora mesmo. Viverem felizes para sempre em vossa ignorância!

- PARE COM ISSO!

- Vamos, não sejais rude!

- Pare... PARE DE ME ILUDIR!

O rapaz reabriu os olhos e sentiu algo ebulir em suas veias. O esforço fora tanto que seus olhos se injetaram de um líquido rubro, mas sua têmpora pôde se acalmar e as veias dilatadas foram, aos poucos, voltando ao normal. Tudo à sua volta que oscilava começou a evanescer, até que ele se viu no cômodo original em que entrara, a porta retornou para trás de si e Afif e Anabelle estavam, cada um, a seu lado, entretanto, desmaiados.

A sala de estar estava, de fato, decorada em estilo europeu. Várias portas ali deviam dar acesso aos outros cômodos da casa e uma escada de madeira levava ao andar superior. Nela, um homem perplexo encarava o Toreador. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo e de resto trajava um pomposo roupão. Apesar da roupa excêntrica, seu rosto lembrava os hispânicos, um tanto bronzeado e uma barba milimetricamente elaborada.

- O quê? O que você fez – Alexander perguntou, ofegante.

- Não se preocupe, eles vão ficar bem – o homem se recompôs – e você, creio que vieste pelo oráculo, certo?

- Que outro motivo?

- Não sei, talvez um chá amigável – ele sorriu maliciosamente.

- Pare de importunar os convidados, Ramirez.

Uma nova voz surgiu do andar superior e passos condenaram que alguém descia as escadas. Pelo que soou, devia ser uma mulher forte, pois a voz era potente e a ordem se fez obedecida de imediato, provocando, inclusive, um arrepio em todos ali.

Após alguns instantes, uma mulher de camisola ou algo do gênero, que lembrava uma vestimenta grega antiga, porém, rosada, desceu os último degraus, passando por Ramirez e se dirigindo aos visitantes. Seus olhos eram brancos, como se ela enxergasse além de tudo e todos, ou por entre eles.

- Dizei-me teu nome, jovem, e o que procuras.

Com um aceno, os dois corpos inertes levitaram e voltaram a ficar de pé. Era um movimento estranho, como se fossem “rebobinados” no tempo. Logo depois, eles abriram os olhos e arfaram desesperadamente, mas após uns instantes, se recompuseram.

- Preciso saber onde está Alessa. E, se possível, como salvá-la.

- Escutai. Assisto o tempo e tudo vejo, mas nada posso fazer por aqueles que já não pertencem ao presente.

- Isso quer dizer que ela está...

- Ela não mais pertence ao presente. O que não significa que não poderia pertencer a teu futuro.

- Apenas uma existência levada pelo Sabá continua no presente, mas algo interfere em minha contemplação e não consigo definir sua identidade.

- Toda primogene da Camarilla foi levada ou morta pelo Sabá – Anabelle interrompeu – seria possível que Samanta, a Lasombra antitribu, ainda esteja viva?

- A existência a que me refiro também não responde por este nome.

A tristeza novamente consumiu a garota. Os olhos dela se encontraram com os de Alexander, e ele apertou a mão em seu ombro para confortá-la. Com os dois ocupados, Afif tomou a palavra:

- Sábio oráculo, como posso curar...

- Como não provaste teu valor, não permitirei que faças perguntas.

- Provar meu valor? E a resposta que deu à esta garota?

- A resposta dela completava a pergunta feita originalmente pelo rapaz.

- E como alguém pode provar seu valor passando por uma ilusão imbecil de um Ravnos?!

- Não fale mal de Ramirez. Ele pode ser um tanto brincalhão e ingênuo às vezes, mas compartilha de minha sabedoria. Não menospreze a esperteza de um Ravnos só porque és uma cobra ardilosa!

Ao ouvir aquilo, Afif se enfureceu, tomou impulso e avançou para o oráculo, iniciando sua transformação em cobra, mas no meio do salto, congelou em pleno ar. Como se o tempo regredisse, ele voltou à forma humana, mas não como o adolescente loiro, era um bebê. Ao perceber o espanto dos demais, o oráculo respondeu:

- Alguns cainitas confundem amor e ignorância. Nu’man estirpou o próprio filho da barriga da mãe, assassinando-a no processo. Deste ato violento, nasceu algo puro, Afif, que significa casto. Ele criou o bebê por alguns meses para se tornar uma oferenda a Set.

Os ouvintes encaravam a cena com asco, mas aqueles olhos profundos só pareceram devanear nas memórias, até prosseguir:

- Nu’man conseguiu sua dádiva de vida eterna com um vampiro muito cruel e sádico. O preço não envolvia um ritual místico, apenas fazia com que seu sucessor se tornasse algo tão demoníaco quanto ele. Entretanto, Firas começou a sentir remorso em seu último resquício de humanidade. Então, enquanto esta criaturinha ainda sangrava no altar, ele a transformou.

- Isso é...

- Ele amava a esposa e amava o filho. Mas a cobiça de juventude e lonjevidade eternas foi maior.

Um minuto de silêncio se instaurou, enquanto Ramirez levava o corpo inerte de Afif para fora da casa. E então foi Alexander que continuou:

- Não entendo como uma pessoa pode não existir no presente, mas sim, no futuro.

- Um ser humano deixa de existir quando vira vampiro, assim como o vampiro que não existia passa a existir quando deixa de ser humano. É a troca universal de forças.

- Desculpe minha indelicadeza, mas a senhora é mesmo um oráculo?

- Sou – ela deixou escapar um sorriso – apenas por definição, ou pela ironia de meu nome ser Delfin. Oráculo é aquele que contempla a existência e é exatamente o que faço. Entretanto, se quisesse definir minha espécie, não sou diferente de vocês.

- Mas não existe nenhum clã ou vampiro específico que possa ver o futuro – Anabelle interveio.

- Existem muito mais coisas entre o céu e a terra que compreendem vossa vã filosofia.

- Shakespeare não explica... Espera, está dizendo que a senhora é um fantasma do passado?

- Precisamente! Aqueles do meu clã, devido a seu mal temperamento, abandonaram as raízes verdadeiras de seu poder. Eu creio ser a única remanescente desta geração, pelo menos, nos Estados Unidos.

- Mal temperamento? Uma Brujah?!

- Acertou novamente, minha jovem.

- Tudo bem que eles são rápidos, fortes e intimidadores, mas... ver o futuro?

- Posso fazer muito mais que ver o futuro. Graças ao dom que chamamos de temporis, consigo viajar no tempo, mas é algo muito perigoso. Meu poder tem poucas limitações, mas se usar desmedidamente, posso acabar destruindo meu próprio corpo.

- Não seria possível voltar três dias no tempo para salvar Alessa e Samanta? – Alexander implorou.

- Não.

- Droga! Alessa e Samanta estão perdidas em algum lugar e não há mais nada que possamos fazer?

- Até o príncipe Ryan foi levado, não temos ninguém mais a quem recorrer – Anabelle suspirou.

- Ryan! – ecoou Delfin – Ele também foi levado?

- Sim, foi um dos primeiros, sinto dizer.

Delfin parecia um tanto abatida após a notícia. Ela devia ter pulado essa parte em sua inspeção temporal, ou o que quer que fosse, devia ter algum histórico com o príncipe.

- Você está bem?

O oráculo ignorou a pergunta de Alexander e se prostrou de joelhos aos pés da escada. Seus pulsos se abriram e sua vitae começou a escorrer pelo chão, mas sem se espalhar. De alguma forma, parecia que estava se aglomerando e tomando forma. Alguns instantes depois, era possível identificar o corpo do príncipe estirado à sua frente. Vários indícios de mutilação e decomposição revelavam o quão terrível poderia ser o Sabá.

Após a conclusão do transporte, Delfin passou as mãos pelas feridas, fazendo com que o corpo se recuperasse naquele efeito de “rebobinar” o tempo. Quando o príncipe abriu os olhos ela cumprimentou:

- Bem vindo de volta, meu querido Ryan. Foi para este momento que vivi. Estou satisfeita de ter podido salvá-lo, assim como fizera por mim há tanto tempo!

- Não!

Essa foi a única palavra que o príncipe pôde dizer. Como resultado do uso indiscriminado de seu dom, Delfin, já com as veias secas, começou a esfarelar aos poucos. Com suas últimas forças, ela colocou um dedo sobre os lábios de Ryan e murmurou:

- É assim que deve ser. Do pó ao pó.

Dito e feito, seu corpo se tornou uma nuvem de poeira no colo do príncipe, cujos olhos estavam enrubecidos e seu rosto se contorcia em um misto de dor, tristeza e cólera.

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