Nu’man, o nome árabe para sangue, e Firas, perspicácia, caiam como uma luva naquele homem. Sua natureza predativa era salientada pelos olhos e língua ofídios, os movimentos graciosos tinham um quê reptiliano e voraz. Do ponto de vista leigo, esse tipo de vampiro não seria muito diferente de um advogado ou vendedor de enciclopédias, mas a aura que eles emanam é como a sensação de ser observado nas ruelas desertas dos guetos do brooklin à noite: puro medo e tensão.
- Creio que esteja ciente das últimas movimentações da “Sociedade” – Anabelle quebrou o silêncio, salientando a última palavra, onde subentendia-se “sociedade vampírica”.
- Meu conhecimento não é infinito, mas bem vindos são vossos apontamentos.
Alexander, a este ponto, começava a absorver essa realidade paradoxal dos vampiros. Os mais velhos possuíam um jeito curioso falar, ele presumia, pois todos aqueles com prováveis centenas de anos falavam uma mistura de gírias e colóquio formal pré-renascentista. Este exemplar era ainda mais curioso, pois adicionava o sotaque árabe à mistura, tornando tudo mais surreal do que poderia.
Neste momento, lhe ocorreram pensamentos sobre como os mortais não percebiam estas nuances, mas era fato que há um vel que mesmo eles recusam a transpor com seus olhos inebriados na sua própria ignorância tecnicista, afinal, só se acredita em mitos quando criança, senão, deveria discriminar falta de juízo ou bom senso ao sujeito. Entretanto, os pensamentos morreram e se dissolveram no conteúdo da conversa, que, de fato, era mais urgente.
- Os mais velhos foram levados pelo Sabá. Alguns foram mortos, outros simplesmente desaparecidos.
- Isso nada me adiciona, pequenina – ele sibilou a última palavra com uma língua viperina e vulgar a lhe escapar os lábios.
- Era o que eu imaginava. Contudo, precisamos de sua ajuda para encontrá-los, pelo menos uma pista. O que dizem seus informantes?
- Ei, ei, calma aí. E o que eu ganharia além de inimigos mortais? Não é legal ter seu rabo na mira de assamitas sabatistas!
- Não tenho muito que oferecer.
- Então eu não tenho muito como ajudá-la!
- Mas eles podem planejar algo contra os Independentes também. Até nós, os antitribu, fomos vítimas.
- Isso também não se enquadra como novidade. Me espanta os antitribu não serem as primeiras vítimas destas caçadas. E se eu não tomo partido, não tenho com o que me preocupar.
- Eles levaram – Alexander começou a murmurar para si e, quando percebeu, já estava gritando – ELES LEVARAM ALESSA!
Os olhos do Toreador enrubeceram e ele parecia que ía chorar, mas se conteve, encarando o anfitrião que, por sua vez, parecia uma flor, murchando lentamente.
O silêncio reinou por alguns instantes, era como se a pergunta de um mero estudante primeiranista pudesse fazer o professor Stephen Hawking ficar sem palavras frente a um debate sobre física. Firas meditou por uns instantes antes de prosseguir:
- Quando?
- Perdi a noção de tempo, mas creio que foi há uns três dias – o rapaz respondeu resoluto.
- Eu não imaginava que ela havia se tornado a primogene Toreador tão jovem.
- Por favor, nos ajude, eu temo por ela.
- E eu não sei o que faria sem Samanta – concluiu, Anabelle.
- Está certo. Apesar de muito me angustiar, tomarei partido de tal mágoa. Entretanto, dizei-me, jovem, por que preocupai-vos tanto com aquela senhorita?
- Ela me fez – disse sem escolher as palavras que, pelo visto, causaram certo desconforto em Firas, mas não lhe ocorria termo melhor ou mais correto, até que se lembrou de ouvir Anabelle e se corrigiu – é minha Senhora.
- Vejo. Então o sangue de mademoiselle corre em suas veias. Isso explica o porquê de alguém tão sedutor que nem precisaria de maiores motivos, causar em você um desespero ainda maior do que o esperado.
Essa oscilação de vocabulário era um tanto irritante, como se as palavras tornassem mais factuais a cada vez que um ancião lembrava da data corrente, voltando ao arcaismo logo em seguida, como se tivessem um mal de alzheimer literário. Apesar disso, Alexander pode compreender a intenção na fala de seu locutor e uma pitada de inveja de Alessa tê-lo escolhido ao invés de alguém com mais experiência e, muito provavelmente, um fino apreço bem maior às artes que ela tanto adorava. Agora ele passava a reparar as molduras do escritório, contendo complicadas partituras de jazz e retratos pintados de famosos compositores através dos séculos e, muito provavelmente, eram os originais.
- Cada minuto que perdemos é vital para a sobrevivência de minha Senhora – ele saiu dos devaneios e alertou, desta vez, sentindo-se mais seguro do termo empregado.
- Muito bem.
Firas fez um sinal com a língua e aquilo que sibilava no canto do aposento se revelou como uma enorme cobra de chifres, grande o suficiente para devorar um bovino e fazer juz ao seu outro nome: cobra touro.
O animal era cor de ébano e serpenteava graciosamente até chegar aos pés daquele que reclamou sua presença, atrás da mesa do escritório. Firas tornou a sinalizar com a língua, falando rapidamente em um idioma viperino e algo saiu de trás da escrivaninha: uma criança pálida e loura, os olhos azuis e bochechas levemente coradas, não parecia um vampiro, tampouco humano.
- Este é Afif, ele irá convosco.
- Espere, ele não era... era?
A confusão de Alexander divertiu firas, mas não por tempo suficiente, ele prosseguiu:
- Há um oráculo em New York, isso é novidade! Mas como todo oráculo, é de difícil acesso, além de haver provações para agraciar-vos com as respostas. Algo sobre “tornar-se merecedor”...
- Onde poderemos encontrá-lo?
- Ora, onde mais? Em Manhattan, claro!
- Onde, especificamente, senhor trapaceiro – acusou, Anabelle.
- Ora, vamos! Não julgue os Setitas como Ravnos! Podemos ter certo parentesco com cobras, mas levamos a sério nossos negócios. Além do quê, eu jamais mandaria meu filho – ele parou momentaneamente como se tivesse pronunciado algo que não devia, mas fora uma fração de segundo em que ele vacilou e continuou como se nada tivesse saido de anormal – em uma missão suicida. Eu não sei ao certo, mas quando chegarem, saberão.
- Setitas? Ravnos?
- São os clãs independentes, meu rapaz! Por acaso nasceste à alvorada?!
- Não, mas ele é novo nisso tudo, tenha paciência – Anabelle defendeu.
Com algumas novas reclamações do Seguidor de Set a respeito da inaptidão de Alexander e alguns comentários salvos para si de que Alessa fizera mau juízo ao escolher um neófito para si, os três seguiram para a pick-up, passando novamente pela música alta que, desta vez, parecia mais alegre e descontraída, e os motores roncaram rumo à Manhattan.
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