O recital terminara naquele instante e Alexander ainda olhava perplexo para o quarteto de cordas que se apresentara. Desde seus oito anos, quando começou a aprender viola, jamais se deparara com uma peça tão complexa e igualmente bem executada. O violinista era o espalla da casa, Johansen, o contrabasso e a viola eram italianos, Mateo e Francesca, respectivamente, por fim, o cellista, Frederico, viera do Brasil e trouxera consigo o título da última peça: Chorus nº 10 de Heitor Villa Lobos.
A platéia pode sentir, durante a execução, como se estivessem de fato na relva da floresta amazônica, enquanto os movimentos ágeis do cello ecoavam melancólicos sons indígenas e o violino chorava como pássaros, o contrabasso trazia o drama e a viola acompanhava a melancolia, também como um pássaro. Até mesmo o cheiro de mata logo após a chuva podia ser sentido ali e era como se houvesse mágica no ar.
Lágrimas vertiam, sem parar, dos olhos de Alexander, até que uma mão segurando um lenço o surpreendeu.
- Por favor, não é bonito um homem chorar, apesar de que eu muito compreendo sua emoção – ao final do braço delicado e decorado com finas jóias se encontrava uma mulher pálida, com bochechas rosadas e batom vermelho vivo que lhe faziam parecer uma boneca.
- Oh! Muito obrigado – ele tomou o lenço e secou as lágrimas delicadamente em um movimento ágil, preciso e sutil de maestro.
- Pode guardá-lo, sei que vai precisar mais tarde – ela lhe abriu um sorriso tão branco quanto a alvura de sua pele.
- A senhorita é muito gentil.
Ambos fizeram silêncio e se entregaram à maré de aplausos tardios, pois todos pareciam ainda estar no mesmo transe. As mãos já estavam vermelhas com o sangue acumulado pelo movimento e ardiam, o quarteto já saíra do palco há alguns minutos e só então a platéia cessou a salva.
- A propósito, me chamo Alexander Ferren, a senhorita é?
- Ah! Alessa Montblanc, encantada – ela parecia tão surpresa quanto ele que tivessem lembrado de se apresentar. – O senhor parece entender um bocado de música, tem uma percepção além da média, pelo que posso ver.
- Bem, fico lisonjeado, não é nada demais. Estudo música desde meus oito anos e consegui me graduar como maestro ano passado. E, por favor, não me chame de senhor, devo ser apenas ligeiramente mais velho que a senhorita, isso me deixa um tanto quanto senil – riu-se sem graça.
- Certo, mas me chame de Alessa, também não gosto de ser tratada com pompa, não neste século – deu um risinho de desdém – e creio que a mais velha sou eu!
- Impossível, te daria vinte anos, se muito! Aparenta ter uns 18. Eu mesmo tenho 22, não é possível que tenha mais do que isso!
- Há! Viu como estava certa! Tenho... Hum – ela fez uma pausa como se ponderasse sobre revelar ou não a idade – 38 anos.
Neste momento, o rapaz ficou mudo e apenas pôde encará-la com espanto.
- Ah! Não faça essa cara! Venha, vamos tomar alguma coisa, estou morrendo de sede. Aí aproveitamos e você me conta um pouco da interessante história de sua vida.
O convite era muito bom para ser verdade, apesar da mulher ter quase o dobro de sua idade, ela era linda e Alexander não levava muito jeito com relacionamentos, uma vez que dedicara sua vida inteira à música. Os dois seguiram para a BMW de Alessa, o carro de Alexander ficaria seguro no estacionamento e ele poderia buscá-lo depois, de táxi, isso não importava muito agora. O veículo esportivo era guiado por um rapaz louro, de uma beleza franzina e juvenil, como uma criança frágil que cresceu demais e se tornara um homem antes da hora.
O carro seguiu para o Queens, parando em frente a um pub, Midnight Heaven, de aparência chique. A porta estava abarrotada de gente bem vestida e, aparentemente, rica. Pulseiras e colares de altos quilates brilhavam em contraponto à parte pobre da cidade, que era quase visível dali: o Bronx.
Alessa e seu convidado seguiram para o começo da fila, ela olhou para o porteiro e ele simplesmente a deixou entrar. Quando estavam lá dentro ela mencionou:
- Peça o que quiser, esse pub é de um amigo meu, sempre venho aqui quando quero.
- Obrigado. É a segunda vez esta noite que está sendo gentil comigo, estou ficando sem graça.
- Pare com isso e me conte algumas histórias – ela disse, conduzindo-o para uma mesa mais afastada e seu corpo dançava, instintivamente, ao som do jazz que invadia o ambiente. – Dois bloody mary – pediu ao garçom que passava.
- A banda parece muito boa – ele anunciou quando se sentaram – o som do baixo é simplesmente fantástico!
- É surpreendente que alguém consiga perceber a esta distância as nuances do baixo, disse ao Patrick para trocar aquela caixa horrível, fica quase que encoberto pela chieira.
- Eu escuto quase claramente, a guitarra está bem mais alta. Sorte que não tem bateria, apenas percussão, ou não conseguiria perceber solos como esse – ele deixou o momento soar.
- Tens um ouvido bem refinado, não é mesmo?
- É a prática. Moro em uma parte calma de Jersey City e me entrego ao silêncio profundo para conceber melodias – ele olhou para um ponto imaginário da mesa e suas feições se entristeceram, tomou um pouco da bebida que acabara de ser servida, franzindo o cenho à iminência de engasgar – pena que sou uma negação completa para a composição. Por mais que eu tente, não consigo criar algo realmente bom.
Alessa se limitou a olhar em complacência para o acompanhante e seu olhar também se entristeceu.
- Veja, por exemplo, essa escala do baixo, harmonicamente quebrada pelo piano frenético, mas suavizada pelo instrumento de maior violência: a guitarra. Somado a isso tudo temos o bongô martelando o ritmo em uma mistura perfeita que, individualmente, seria feia e agressiva, mas no conjunto formam essa maravilhosa trilha que acompanha nosso ambiente... Desculpe, estou sendo muito reticente em falar da minha frustração.
- Não se preocupe com isso – ela tomou sua mão contra as próprias – é fascinante – seus olhos cintilaram, eram verdes profundos e o fizeram lembrar das florestas que imaginara cerca de uma hora atrás e ruborizou.
- Também acho...
- O quê?
- Fascinante – falava meio hipnotizado pela beleza da acompanhante, ainda compenetrado em seus olhos.
- Venha comigo – ela se levantou e o guiou até os fundos.
Enquanto passavam pela multidão, o som da música foi se perdendo, assim como a lucidez de Alexander. Ele se lembrou de que não comia há muito tempo. Estava entregue ao trabalho antes de visitar o concerto e aquele gole ligeiro de álcool não lhe fizera bem.
O mundo girava quando passaram por uma portinhola e se depararam com várias pessoas usando drogas, cocaína, heroína e um leve cheiro de ópio que, com certeza, não vinha de nenhum incensário. Mas o destino não era aquele, seguiram mais um pouco até uma cortina de veludo carmim e adentraram um novo aposento, continha algumas almofadas vinho, também de veludo, formando uma espécie de cama, era aconchegante, esfumaçado, a luz era baixa e o lugar todo tinha um perfume leve de jasmim.
A náusea tomou conta de Alexander e ele se sentiu tonto, fechou os olhos por um instante e sentiu que havia apagado. Quando acordou, Alessa estava sobre ele a acariciar seus cabelos. Eles eram escuros, quase pretos, de comprimento, quase chegavam no ombro, enroscados nos dedos brancos de Alessa pareciam vinhedos se encaracolando em delicadas vigas de mármore.
Ainda com a visão turva, o rapaz vislumbrava o sorriso carmim e dentes brancos envoltos em nuvens castanho-avermelhadas pairando sobre seu rosto e pode ouvir as palavras “gosto de você”.
Ele não pode deixar de se sentir envergonhado com a situação. Uma mulher de alta classe, belíssima, estranhamente interessada em sua pessoa e ele, por sua vez, embriagado com apenas um gole!
- Você me acompanharia para sempre? Posso te dar a luz, mas para isso você teria de aceitar minha treva, meu jovem querido.
- Eu te seguiria – ele esboçou o máximo que a náusea permitia – até o limbo da minha existência. “Nem um bem sem um companheiro nos dá alegria”.
- Ah! Sêneca!
- Conhece?
- Sim. Passei um tempo em Córdoba e lá aprendi sobre alguns de seus filósofos nativos. Certamente escolhi a pessoa certa para ficar a meu lado. Além de um belo artista és um erudito. Agora devo te contar um segredo: sou mais velha do que disse, na verdade, menti.
- Eu agora não acredito, estou começando a me achar um pedófilo e que foi errado te trazer a um lugar desses – o torpor do álcool começava a passar.
- Eu, na verdade, tenho 380 anos – ela ignorou a surpresa do rapaz – e há 363 anos que tenho 17.
- Isso é – ele acariciou o belo rosto da moça – impossível.
- Você logo compreenderá.
Ao dizer isso, seus caninos se eriçaram e ela mirou o pescoço de seu acompanhante, ele sentiu uma breve pressão perfurar-lhe a pele e, em seguida, mergulhou no êxtase da mordida. O gemido de dor se tornou um “lá” barítono de prazer que durou alguns instantes e cessou, mas o corpo ainda estava entorpecido com a euforia, era como se aquela carícia violenta em seu pescoço tivesse lhe despertado um instinto masoquista latente. Nunca sentira nada igual e nem poderia imaginar uma variante tóxica ou sexual que pudesse lhe proporcionar estática semelhante.
A vampireza lambeu a ferida, cicatrizando-a e, em seguida, rasgou a pele de seu seio, puxando a cabeça do rapaz contra ele, não como uma mãe que amamenta o filho, mas como uma concubina que acalenta o amante.
O líquido viscoso, mais espesso que o sangue, contendo centenas de anos, escorreu de seu peito. A vitae alimentava o novo ser das trevas que nasceria daquele parto obsceno. Mãe e filho, amante e algoz, Caim e Lilith. O par continuou a dança da procriação vampírica a que chamam de “abraço”, até que ambos caíram entregues ao êxtase e a transformação se iniciava.
Alexander estava, aos poucos, perdendo a consciência quando a trôpega Alessa o levou ao carro e seguiram para a casa do rapaz, em Jersey City. Chegando lá, eles se despediram de forma desajeitada e ele entrou. Deixou-se cair sobre a escrivaninha em seu estúdio, onde o isolamento acústico e as paredes sem janelas o deixariam ter um sono tranquilo e, ali, acabou por adormecer sobre seus trabalhos inacabados, derrubando o frasco de tinta.
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