O casal Toreador seguia pelas ruas de New York, no banco de trás da BMW e algo continuava a martelar na cabeça de Alexander. Maus auspícios, alguma coisa estava errada e prestes a acontecer.
- Rick – Alessa cortava o silêncio denso, chamando o motorista.
Já passava das quatro horas e o sol logo despontaria, por algum motivo eles ainda não haviam chegado ao refúgio e isso era preocupante. O trajeto que deveria durar dez minutos, mesmo com aquele trânsito, se estendera por 40.
- Sim, madame?
A voz grossa vacilou por uns instantes antes de soar, mas não pertencia ao motorista. Alessa se assustou, apesar de já ser tarde demais.
- Agora que notei, estamos indo para o Bronx!
À exclamação de Alexander, o carro acelerou violentamente e alguém se levantava do banco dianteiro, um quarto elemento, apontando uma arma de calibre grosso para os dois. Ele era feio, algo além do normal, tinha a cabeça achatada em cima e suas orelhas puxadas, como um burro, várias protuberâncias ósseas ao longo da testa calva e o nariz como o de um porco; os olhos eram fundos e sombrios e sua língua enorme balançava, ateando saliva enquanto falava. Quando o lance de adrenalina cedeu, era possível perceber que dele vinha o cheiro de decomposição e cemitério que preenchia o veículo.
- Vamos, Ramiro, temos que cuidar desses dois e eu ainda tenho que voltar antes do sol – sibilou o copiloto armado.
- Calma aí, Bergson – o motorista respondeu, resoluto – estamos quase lá.
- Queria brincar com esta boneca...
O Tzimisce esticou um pouco a mão livre e ossuda, os dedos compridos quase tocando as pernas de Alessa e fazendo Alexander rosnar - ou algo do gênero.
- Ora, vejam, o bebê tem presas!
Desta vez, a mão medonha alcançou a perna de Alexander, punindo sua imprudência e fazendo-o gritar. Um misto de dor e desentendimento desfiguraram sua face, enquanto via as finas unhas cravadas em seu menisco, puxando gentilmente as fibras do músculo sartorius para além de sua perna, como se arrancando as linhas dos gomos de uma mexerica.
O Tzimisce parecia se deliciar com a cena, puxando uma a uma as fibras, de forma limpa, sem desperdiçar a vitae do jovem vampiro. Alexander se sentia um boneco de fiapos, aos poucos despedaçado por um cão desdenhoso que desfia a costura de sua perna a fim do mero prazer de coçar os caninos.
O carro estava diminuindo a velocidade à medida que o bufão perdia seu interesse na perna de Alexander. Alessa tentava arquitetar um plano rapidamente e, vencida, agiu por impulso. Como um raio, desviou a arma e agarrou o braço do inimigo, mas tudo que conseguiu foi dor.
- Acho que não, bonequinha. Ramiro, faça-me o favor.
Uma mancha escura cobriu o rosto pálido de Alessa e ela pareceu sufocar por um instante enquanto um dos dedos enormes lhe pressionava o diafragma por dentro da pele.
O hábito de respirar custava caro, quando se era pego desprevenido, mesmo não necessitando de oxigênio, o esforço do sistema respiratório para manter o olfato podia fatigar, se interrompido de abrupto, causando algo como a sensação de afogamento.
O carro finalmente parara e Alessa foi removida do veículo como uma refém, as sombras em sua cabeça exerciam o papel de uma sacola que a impedia de ver onde estavam. Alexander, que estava imobilizado, tentou se arrastar para fora do carro, mas a dor o conteve. Ele se sentiu frustrado e se lembrou dos avisos do príncipe, um tanto mais cedo.
“Não usar seus dons na frente dos humanos”. Que será que eram esses dons e por quê ele não sabia como usá-los? A frustração tomou conta de si e ele se sentia inútil enquanto sua mestra e criadora era levada para longe de si, um bibelô abandonado, nada mais.
As sombras abafavam os gritos de Alessa, mas era possível ouvir os barulhos da luta, ela tinha alguns anos a mais de experiência que os sabatistas, mas eles venciam pelo elemento surpresa e a guarda baixa. Por fim, o barulho de um segundo carro acelerando tirava todas as esperanças de sua cria.
O motor ainda roncava quando a porta se abriu novamente, ao fundo, era possível ouvir o barulho do mar. Bérgson puxou Alexander pelos cabelos até próximo à porta, de algum modo prendeu seus braços às costas e as duas pernas e o arremessou contra a lataria, ferindo seu rosto que, após a queda, se afundou na terra úmida sob o corpo retorcido pelo mau-jeito.
- Morra novamente, Toreador, na pompa que sua escória merece. Como é novo e sou benevolente, te permitirei um último pôr-do-sol.
O Tzimisce entrou no Lada amarelo que o aguardava e acelerou pela rodovia. Faltavam poucos instantes para o nascer do sol e tudo indicava que a vitória, esta noite, pertenceria ao Sabá. A redução do número de Toreador na cidade era iminente.
Alexander sentia a dor em sua perna desfiada como jamais imaginara. Seus pulsos e tornozelos estavam, de alguma forma, colados e não pareciam ceder à sua luta frenética; e o gosto de lama em sua boca completava o sofrimento. O céu escuro e fumarento já estava azulando, ou melhor, o tom de cinza ficava cada vez mais claro e os olhos do vampiro se injetaram com um medo irracional. Ele sabia e não sabia o que lhe aguardava, a queimadura solar letal contra sua espécie, contra a qual nenhum protetor solar seria eficaz.
- Ei, você ainda ta vivo?
- Grrr. Vivo, ou quase – ele grunhiu, desconfortável, mas pôde reconhecer, pelo canto do olho, o membro sênior da Camarilla, aquele que chamaram Ezequiel.
- Aguente um instante, vai doer!
O Nosferatu não parecia fazer cerimônia, pegou uma faca enferrujada da bota e, com dois talhos rápidos, dividiu os braços e pernas do Toreador. A lâmina era mais afiada do que a aparência permitia crer e, quando o susto do golpe passou, ele sentiu a dor cruciante e gritou.
- Eu avisei que ia doer – disse, um leve tom de cinismo na voz.
Ezequiel apoiou Alexander em seu ombro e o arrastou para o bueiro mais próximo, à margem da rodovia, caindo pesadamente no duto de esgoto. A dor voltou a tomar conta da perna desfiada e das novas feridas do tamanho de bolas de baseball em suas juntas e ele abafou um novo grito.
- Cure-se – recomendou o rato de esgoto.
- Como?
Ezequiel revirou os olhos com enfado e explicou:
- Sinta seu “sangue” – ele frisou a palavra em tom professoral – e faça-o circular pelo seu corpo. Pense em regenerar-se, cure suas feridas, sua perna será mais complicada e você terá de aguentar mais um pouco.
Alexander obedeceu, sentiu um certo calor percorrendo seu corpo, como se uma montanha russa acabasse de receber o primeiro impulso pelos trilhos, o sangue estacionado começou a circular pesadamente e foi ganhando velocidade. Ele se sentiu forte e recuperou o pouco de rubor que conseguiu alcançar. Aos poucos, sentia a dor sumindo, as feridas estavam fechando, mas muito lentamente.
- Há quanto tempo você não se alimenta?
- Bem, eu...
- Certo, entendi, você realmente é novo nisso, não é mesmo?
- Sou – ele admitiu tristemente.
- Não se preocupe, eu não abandono ninguém em necessidade, mesmo que seja um degenerado como você.
Aquelas palavras não fizeram muito sentido, mas ele se sentiu agradecido. Os dois continuaram a caminhar pelo labirinto de esgotos do Bronx, evitando as clareiras, enquanto o sol caminhava ao pino, sobre a cidade de New York.
Gastura PROFUNDA da sequência do joelho.
ResponderExcluirOH DEAR GOD.
E poxa, eu tinha simpatizado com a Alessa! Maldade ù.u