Já devia passar das 22h, pois a escuridão da noite envolvia mais que o brilho das estrelas e o pressentimento de perigo nas ruelas da metrópole ecoava no coração dos indefesos. Depois de tanto tempo dormindo, fraca e atordoada, Anabelle fitou, através da fresta formada por suas pálpebras relutantes, devido à dor de cabeça, o quarto escuro que lhe era tão nítido quanto um dia ensolarado é para um mortal.
Nada parecia ter mudado desde a noite anterior, exceto que agora sua Senhora fora raptada e a dor remoía em seu peito. Entretanto, apesar das aparências, algo mais havia mudado, pois não era apenas o sentimento de dor que transbordava em seu seio infante. Retomando a consciência, levantou o corpo e virou-se para o lado onde um jovem vampiro se debruçara à beirada da cama e aos poucos deslizara para o chão, apesar de ainda pender a cabeça inutilmente apoiada nos lençóis.
Anabelle esticou sua mão, mas a fraqueza tomou conta novamente e ela vacilou, caindo sobre Alexander, que acordou abruptamente com o impacto.
- Ai, você está bem – ele arquejou.
- Me... sinto muito – ela respondeu constrangida.
- Não se preocupe, o que importa é que você esteja bem. Vou buscar sua cadeira.
O rapaz seguiu até um canto do quarto e, quando voltou, ajudou Anabelle a se acomodar em sua cadeira de rodas.
- Não precisa se incomodar comigo – ela disse, ruborizando desta vez.
- Sinto-me mal por trazer tanto transtorno. Minha visita só lhe trouxe maus auspícios e eu posso entender o que está sentindo de uma forma tão profunda que nem eu mesmo conseguiria explicar.
- Não – ela começou, mas não queria dizer “não, sua visita não trouxe apenas coisas ruins”, ela refreou, poderia soar estranho.
- É difícil aceitar, mas – ele escondeu a leve irritação ao falar, como se ela não se importasse – eu também perdi Alessa – a menção do nome doeu, mas ele novamente se mostrou forte e absteve de demonstrações – e estou sofrendo o mesmo que você.
- Me desculpe, eu não pretendia... Bem, poderia, por gentileza, me levar ao closet? Preciso me arrumar. Peça à Paco que lhe arrume algumas roupas e eu logo o encontrarei. Preciso... Precisamos – ela corrigiu – nos alimentar também. Portanto, me aguarde à mesa de refeições.
Assim, ele obedeceu. Não lhe ocorrera contradizer, aquela voz era, de fato, hipnótica. Alexander se sentia honrado e cumprir seus caprichos, apesar de não serem, necessariamente, caprichos. Anabelle era delicada e educada ao pedir algo para seu convidado, como se ele não precisasse fazer, mas ele sentia como se devesse corresponder a todos seus ansejos, como uma força invisível que estava aquém deles, portanto não provinha de nenhum poder que a vampireza pudesse usufruir livremente.
Aproximadamente uma hora depois, os dois se alimentavam com sangue comprado de algum hospital, mas que servia a seus propósitos imediatos. A força lhes voltava e a dor de cabeça e visão turva desapareciam. Ambos pareciam encenar um filme de época. Anabelle trajava um vestido preto brilhante, com uma linha de ônix costurada no decote, pendendo sobre o tecido folgado, encimado por uma ècharpe de renda preta em seus ombros. Por fim, uma cruz de ouro pendia em seu pescoço, contrastando com o traje negro, ela continha pedras vermelhas, talvez rubis, cravejando de uma ponta a outra, onde encontravam com pedras azuis como safiras.
Alexander, por sua vez, vestia um terno grafite de tecido italiano texturizado, como se tivesse riscas invisíveis verticalmente. A camisa era vinho e, no lugar da gravata, aquele nó vitoriano que as pessoas usavam como alternativa aos babados, uma fita preta em laço. Seus cabelos escuros estavam amarrados com uma pomposa fita cor de vinho, combinando com a camisa, revelando algumas mechas grisalhas, resultado de seus anos de estudo e preocupação. Os pulsos ostentavam abotoaduras de prata e ônix, que caiam muito bem com aquele terno de alta costura, ele parecia um tipo de lorde renascentista.
Apesar da humildade que o músico transmitia, por causa de suas frustrações, ele era, de fato, muito bonito. Esse talvez fosse um dos pontos principais que levaram Alessa a escolhê-lo. Sua face possuía traços fortes e encantadores que, recobertos pelo brilho de atração natural que os seres da noite emanavam, tornava-se irresistível para qualquer mortal. Naquele momento, no entanto, a única pessoa que poderia contemplar essa magia era Anabelle que, por sua vez, emanava um outro tipo de energia, sombria e atrativa, que lhe tiravam o ar infantil com a sedução de uma mulher infinitamente jovem, era um tipo de lolita gótica, pois além do traje, a maquiagem escura condenava seu gosto pelo preto e suas tonalidades.
Havia uma tensão no ar quando os dois terminaram de se alimentar. O rubor do sangue circulando tingiu a face de ambos e eles se entreolharam, como se fossem conhecidos de longa data há muito separados. Algo como um brilho novo surgiu entre eles, era um laço que se formava, diria um observador mais atento das nuances, os demais apenas veriam o quadro da perfeição, onde dois seres dialéticos entre a treva da essência e a luz da beleza formavam o ying yang máximo e que, se nada mais existisse, não teria sido em vão à contemplação desta cena.
Como se tivesse subentendido, os vampiros se dirigiram à garagem, Anabelle sempre guiada por Alexander, entraram em um dos carros mais robustos, uma pick-up, sem motoristas, apenas os dois sairiam naquela jornada, sem saber se um dia voltariam.
O motor roncou e, instantes depois, estavam a caminho do Brooklin.
- Ventrue, Toreador, antitribu – ela enumerava.
- Todos levados.
- O Nosferatu está desaparecido, talvez levado também. A Tremere está morta, junto de todo o resto.
- Exceto um.
- Sim, exceto o que seguiu com o Brujah.
- Mas ainda falta um, não é?
- Certo. Falta o Malkaviano, mas ele não está mais aqui.
- Como sabe?
- Olhe à frente.
Os dois chegaram a uma residência no Brooklin, aparentemente normal, mas a uma segunda olhada, claro, à percepção vampírica, seu interior crepitava em chamas, tomado pela fumaça escura que não tinha por onde escapar.
- Vamos torcer para que a intuição deles tenha sido mais forte. E apressemos para que não sejamos pego pelo que quer que tenha vindo buscá-los.
O carro seguiu, desta vez, sem rumo.
- Acho que teremos de recorrer a isto.
- O quê?
- Bem, você já sabe que existem duas facções entre nossas famílias, não é?
- O Sabá e a Camarilla, certo?
- Precisamente, mas mesmo em guerras, aqueles que não servem a nenhum dos lados, como são chamados?
- Hmmm... Mercenários?
- Exato. Há aqueles que são neutros e tão poderosos que podem se abster do combate e, em momentos como esses, podem servir ao lado que preferir.
- Isso parece perigoso...
- E é – interrompeu, ela.
- É a única alternativa, não é?
- Ou isso, ou ficamos às cegas esperando um próximo ataque. Siga para o Queens.
- Midnight Heaven – algo fez com que ele dissesse o nome do lugar em que esteve com Alessa em sua primeira noite.
- Como sabia?
- Eu... Não sei. Mas foi o lugar que Alessa e eu fomos após o recital e...
A tristeza tomou conta de Alexander o resto do caminho e Anabelle nada pôde fazer para confortá-lo, além de remoer seus próprios pensamentos em Samanta. Quando chegaram ao pub, a música boa tomou seus ouvidos, aliviando um pouco da dor sentida e levando suas mentes para as urgências imediatas.
Como sempre, a portaria estava cheia e não seria fácil entrar, entretanto não era o que Anabelle parecia pensar quando chegaram próximos ao porteiro. Ele a encarou com alguma surpresa e disse ríspide:
- Crianças não são permitidas.
Ela o encarou por alguns instantes, como se preparasse uma resposta inteligente, mas simplesmente argumentou com a voz mais encantadora do mundo:
- Estou aqui para ver seu chefe, se não for incômodo. Poderia nos levar a ele?
Os olhos do homem brutamontes estavam vítreos e sua boca entreaberta, como geralmente os homens ficam frente às finais do campeonato de futebol, claro, quando ainda há cerveja em seus copos. Ele estava hipnotizado por alguma coisa e Alexander sabia que um homem bronco daqueles jamais perceberia as nuances belíssimas da voz da menina, então teria de ser algo mais. Ele não resistiu e perguntou baixinho:
- Você o enfeitiçou?
Ela deu uma risadinha ao termo místico.
- Pode-se dizer que sim. Só para evitar questionários vãos.
- Entendo – ele ponderou por alguns instantes – isso pode ser feito com – ele pareceu preocupado – um de nós?
- Sim, se o poder for realmente forte, pode. É tudo uma questão de força de vontade, tanto da ordem, quanto da obediência. É outro campo em que o forte vence o fraco.
Ele ficou calado, como se algo lhe ocorresse. Ela, então, percebeu e advertiu um tanto amargurada:
- Não se preocupe, eu não seria tão baixa.
- Desculpe, eu não pretendia. Você foi tão gentil comigo até agora, não sei como pude pensar nisso...
- Está tudo bem, sério. É normal ter cautela. E é aconselhável aumentá-la a partir de agora, nosso amigo é um tanto ardiloso.
- Como assim?
- Você vai entender ao vê-lo.
A música, antes alta demais para a audição sensível dos dois, parecia uma vaga lembrança quando os dois atingiram a parte do andar superior com isolamento acústico. Ali havia um corredor e várias portas. À última, em linha reta, lia-se “Gerência”. O porteiro abriu-a após algumas batidas e os dois entraram sem pestanejar.
O lugar tinha uma iluminação baixa e avermelhada, como um cabaré das antigas, exalava um perfume de ópio e papoula, incensos, algo sibilava a um canto e no centro, uma mesa com uma cadeira à qual o criado sinalizou para que Alexander se sentasse, colocando Anabelle a seu lado. Do fundo mais escuro do aposento, uma figura alta em trajes refinados se aproximou, revelando seu rosto.
O vampiro devia ter 1,90m de altura, pele escura, típica dos povos mezzo-orientais, algo entre o negro e o caucasiano, pardo seria a especificação mais próxima, mas ainda inexata. O corpo era esguio, mas mesmo sob o terno de alta costura, dava a perceber que era um corpo bem treinado. Uma das mãos descansava sobre uma bengala cuja empunhadura era uma esfera de cristal, encrustada em uma madeira escura como mógno e decorada com alguns nódulos de ouro. O rosto do vampiro era comprido e um tanto macilento, apesar de ainda revelar alguma beleza moura. Por fim, no topo da cabeça nua, uma tatuagem de serpente residia nitidamente, enrolando na altura do pescoço, sumindo por debaixo das vestes e terminando na mão livre, onde o rabo da serpente trançava entre os dedos.
A imponente figura se aproximou e os olhos, antes vítreos, de seu empregado se preencheram com um medo fatal. Aqueles globos fendados encaravam o pobre homem que esperava à porta e gaguejava:
- Senhor Nu’man, estes visitantes pediram para tratar com o senhor.
O anfitrião se limitou a sibilar e fazer um gesto com a mão para dispensar o serviçal e se dirigiu aos convidados.
- Então – a voz grossa teve impacto e reverberou no ambiente acústico, como se ele entoasse as palavras carregadas pelo forte sotaque árabe – o que o humilde Firas Nu’man pode fazer pelos seus ilustres convidados – um brilho perpassou seus olhos fendados e ele se sentou, pronto para negócios.
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