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Acabava de acordar, ainda um tanto atordoado. Sua cabeça ainda doía e a garganta estava seca. Foi até a geladeira e pegou um pouco de água, mas não conseguiu beber, tinha um gosto horrível, como se estivesse choca, mas a sensação desagradável despertou o resto dos sentidos ainda dormentes pela fadiga e a doce fragrância de um envelope o levou até a porta.

“Ao senhor Ferren”, dizia o envelope pardo perfumado, apesar de não conter remetente. O homem que, apesar da fadiga aparente e da palidez, era muito belo e jovem, rasgou o frágil lacre da carta para ler um convite em letras caprichadas, escritas com tinta rubra sobre papel envelhecido:

Caro sr. Ferren,

Caso seja de vosso interesse – e cremos que o é – V. Srª está cordialmente convidada ao Elísio que prestigiará, nesta noite, os novos membros. Contamos com vossa presença à West 53 Street – Museu de Arte Moderna de New York (MoMA).

Aquilo era, de fato, muito interessante. A despeito da incrível formalidade da carta, esse tipo de festejo era igualmente incomum, ainda mais por requerer a presença de um artista não muito famoso, oriundo de Jersey City.

A dor de cabeça estava ficando mais forte e o aroma do papel estava deveras convidativo. Chegou mais perto do nariz e tragou aquele sabor delicioso e, quando percebeu, já havia colocado parte do convite na boca, mas o gosto também era delicioso. Pelo visto o papel era comestível. “Mas, pelo menos, deviam avisar”, pensou indignado e envergonhado do que acabara de fazer, mas pelo menos sua dor de cabeça passara.

Após a estranha refeição e um banho, afinal, Ferren estava sujo de tinta das partituras sobre as quais cochilara, vestir o velho smoking e tomar as chaves do carro eram os últimos preparativos antes do evento de gala.

Não demoraria muito ir de carro de Jersey City a Manhatan, em cerca de 20 minutos o rapaz podia avistar a arquitetura diferenciada do Museu que recortava entre os prédios modernistas da 53rd Street. Deixou o carro com o manobrista e se dirigiu à entrada, onde um seguranças brutamontes – loiro de olhos azuis, porém musculoso, parecendo um viking – conversava com uma garotinha que parecia ter a metade de seu tamanho, o que era agravado pelo fato de se locomover por cadeira-de-roda.

- Por favor, senhorita, diga-me seu nome, idade e patrono.

- Anabelle Françoise, 53 anos, Samanta Consuelo Borges.

Ferren se assustou com a menção da idade, já vira aquilo antes em revistas e filmes, mas nunca pessoalmente. É um daqueles casos em que a pessoa não cresce e demora mais a envelhecer, ficando para sempre com o corpo de criança. Devia ser algo muito triste. Apesar disso, ela conservava uma beleza arrasadora de infante, como se ainda tivesse seus 13 anos, e a voz era um tom sopranino perfeito, que encantou os ouvidos do músico frustrado e o fez acreditar novamente na existência de pessoas capazes de encantar com solfejos.

- Por favor, senhor, nome, idade e patrono – a interrupção de seus devaneios veio como uma pedra na vidraça, quando o segurança interpelou.

- Ah, sim, sou Alexander Ferren, 22 anos, não possuo um patrono, sou um compositor independente, apenas fui convidado ao Elísio.

- Certo – o termo esboçou uma careta no viking, deixando-o ainda mais assustador – terá mais explicações lá em cima. Queira por gentileza entrar e seguir para a torre à sua direita. Será no último andar, sobre as escadas.

O músico seguiu o caminho, ponderando sobre o que deveria dizer nesse tipo de ocasião, quando chegou à beira das escadas e se deparou com a realidade novamente. Anabelle estava parada, olhando de um lado para o outro, talvez procurando um elevador, e pareceu se assustada ao avistar o novo convidado. Alexander, por sua vez, seguiu para trás da menina-velha e disse:

- Se me permite.

- Faria a gentileza?

Os dois subiram as escadas lentamente, a cadeira-de-roda não parecia nem um pouco pesada, como se seu conteúdo não existisse. Talvez fosse o efeito da voz melodiosa que ela emitia, que relaxava e abrandava todas as preocupações de sua escolta. Era trágico como algo tão perfeito podia ser devido a uma enfermidade, como se o tempo tivesse congelado aquela criatura, poupando-a do envelhecimento, mas também do amadurecimento de seu corpo.

- Chegamos – ela interrompeu, tirando Alexander de seu transe com um novo golpe de realidade.

Não era uma sala muito grande, mas era suficiente para comportar confortavelmente as cerca de 30 pessoas que se reuniam ali, observando alguns quadros e se servindo dos cálices de vinho que iam e vinham. Não parecia uma grande ocasião, mas uma reunião de gala de velhos amigos excêntricos ou algo do gênero. A palavra Elísio era confusa, mas devia ser entendida como um tipo de reunião dos apreciadores da arte, possivelmente parafraseando Dante Alighieri – pensou.

- Desculpe, mas ainda não fomos apresentados, me chamo Alexander – cumprimentou à garotinha de meia-idade.

- Sou Anabelle Françoise.

- Prazer em conhecê-la.

- Obrigada pela ajuda, de qualquer forma – ela agradeceu e foi se juntar a uma mulher alta e elegante, cuja pele clara contrastava com as peles chiques que ela trajava em um negrume de piche.

Aquele lugar era estranho demais, assim como seus transeuntes, não pareciam fazer parte do museu, aliás, a atmosfera do lugar era de ansiedade, todos esperavam por algo e Alexander pode sentir, estranhamente, esse sentimento ao redor, como se fosse parte de si mesmo.

Instantes depois, a resposta subiu os últimos degraus da escada, avançando pela porta de mogno do aposento: um homem que aparentava estar na casa dos 40 anos, trajando vestes conservadoras e um tanto fora de moda, apesar da evidência de uma grife européia.

Uma mulher que parecia recepcionar os convidados de maior prestígio se virou para ele. Ela parecia sua filha, pois tinha um ar muito jovial e cheio de vida. Pálida, provavelmente pelo pancake, com batom vermelho rubi, seu rosto era como de uma boneca de porcelana. Seus cabelos anelados ligeiramente rubros sobre o tom castanho escuro lhe davam uma aparência sedutora e irresistível de se demorar por uns instantes ao passar os olhos, mesmo que isso seja rude e constrangedor. A moça, então, beijou a mão do novo convidado e anunciou para os demais:

- Senhoras e senhores, o príncipe Ryan chegou, portanto, começaremos as formalidades. Queiram todos tomar seus lugares ali – ela apontava uma área mais reservada do salão com uma série de poltronas distribuídas a uma hierarquia estranha – e você pode vir comigo – ela se dirigia para o convidado que parecia mais atônito: Alexander.

- Pois não – respondeu ele, ainda sem entender.

Depois que todos se sentaram, era possível ver o “príncipe”, ou seja lá como esses excêntricos chamem seu presidente, sentado a uma posição central, ladeado de sua acompanhante que só foi notada bem depois, devido ao alvoroço, e outros três jovens que bem podiam ser seus filhos. Em seguida, um grupo elegante de três pessoas com ar inteligente e, do outro lado, a anfitriã e Alexander.

Ao lado oposto do círculo, Anabelle e sua patrona, ou era o que parecia ser, em vista das apresentações; à sua esquerda, algumas pessoas de menor refinamento e trajes mais simples olhavam feio umas para as outras, um homem de aparência suspeita que não havia sido notado até então e tentava freneticamente esconder o rosto com um lenço e, por fim, outros convidados menos notáveis se acomodavam ao redor.

Ryan tomou a palavra e mesmo os mais reles burburinhos silenciaram em respeito:

- Começaremos, então, o Elísio desta noite. Para os novos membros que ainda não me conhecem, sou o príncipe Ryan Forster e governo a Camarilla de New York desde 12 de setembro de 1987.

Alexander começou a pensar sobre o que seria “Camarilla” e se aquilo era algum tipo de curadoria estranha e paternalista, talvez hereditária, um tipo de clube “V.I.P.” para grandes artistas. Mas, se fosse, o que estaria ele fazendo ali?

A despeito de seus pensamentos, o príncipe continuou:

- Esta, ao meu lado, é a rainha Victoria. E, não menos importante, a realizadora deste Elísio e curadora do Museu, Alessa Montblanc – ele acenou para a radiante boneca-anfitriã. – A todos os novatos, minhas boas vindas à sociedade vampírica.

O choque se espalhou por seu cérebro antes que Alexander percebesse estar boquiaberto e vítima de um olhar censor de Alessa:

- Ora, vamos, tente se lembrar e não faça essa cara. Ah! E é falta de educação, feche a boca – disse ela, tocando o queixo do músico com o indicador para que ele recuperasse a razão.

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