ONZE

- Já estamos rodando há meia hora e nenhuma pista do oráculo – Anabelle encarava Afif, exasperada.

- Por acaso achou que teria um letreiro luminoso assinalando sua residência?

A voz do garoto tinha a predominância juvenil, mas um tanto potente para a idade que aparentava. Ele falava com uma sabedoria estranha, como se já vivesse há mais tempo mesmo que Anabelle. A frieza com que cospia as palavras e o fraco sotaque árabe que as acompanhava, davam a ele uma aura assassina, daquele tipo de criança que, por viver próxima aos conflitos religiosos do Oriente Médio, possui uma visão banal dos conceitos de vida e morte.

Nesse instante, porém, quando Alexander voltou os olhos para os dois que discutiam, sem se descuidar do volante, a imagem de Afif pareceu oscilar, como um olograma que perdia força, era como se ele fosse desaparecer ou, pelo menos, mudar de forma. O Toreador esfregou os olhos e se concentrou na pista, novamente, limitando-se ao desabafo:

- Então, o que sugere que façamos?

- Vire a próxima à esquerda e estacione.

Assim, ele obedeceu. Todos desceram do carro e se dirigiram a um lugar festivo, de cores vibrantes. À noite, as luzes dos postes diferentes dava uma iluminação parca, que convidava mais às lojas que se apinhavam sobre a calçada.

- Chinatown?!

- Sim. Setitas e Assamitas não são os únicos seres da noite que provem do leste. Portanto, fiquem calados. Não podemos sentenciar nossas mortes por bocas grandes, certo?

Os dois, resignados, mantiveram silêncio enquanto caminhavam para uma portinhola ornamentada a um canto. A imagem de Afif voltou a tremular, mas desta vez, ela não voltou ao normal, ao invés disso, retornou ao foco como um oriental de meia idade. Deixando perguntas para depois, eles continuaram.

Uma vez dentro, parecia ser uma loja de produtos fitoterapêuticos, com várias plantas e raízes pendendo do teto ou em potes ou sacos nas estantes. O cheiro de coisa verde agrediu as narinas sensíveis dos visitantes. Ao fundo, sobre uma mesa de madeira velha, um homem de aparência ainda mais senil triturava algumas ervas em um equipamento arcaico que envolvia uma roda de pedra e uma madeira escavada.

- Sifu ancestral – Afif chamou com uma voz diferente, um tanto aguda, mas rouca, ele realmente sofrera alguma metamorfose.

- Precisa de algo?

- Vim buscar vossa sabedoria, honorável sifu.

O velho levantou sua cabeça e colocou os óculos que estavam repousados sobre a mesa. Sua aparência era inofensiva, mas havia algo de misterioso sobre ele. Quando ele moveu sua cabeça e deixou a luz escapar do seu objeto de estudo, várias centopéias cintilaram, dependuradas em fileiras atrás de si. Seus lábios se volveram em um sorriso desdenhoso e ele advertiu com seu forte sotaque chinês e falar cantado:

- Pare de enganar a si mesmo, gweilo.

Afif pareceu entender o que o herbalista pretendia com aquelas palavras estranhas e voltou à sua forma de criança.

- Eu não consigo enganar um kuei-jin, como era de se esperar.

- Seu cheiro, tudo em você, grita sua essência. Mas ainda não ouviu meu conselho.

- Prefiro ficar nesta forma, se não se importa.

- Não há problema, jovem cataio.

- Viemos à procura do oráculo, sabe de sua residência?

O sorriso se revolveu um pouco mais, mostrando os dentes amarelados do kuei-jin e deformando sua pele enrugada. Seus olhos cintilaram à fraca luz, mostrando-se leitosos como os de uma aranha. Mesmo por detrás dos óculos, cicatrizes evidenciavam que essa condição era devido à várias tentativas de arrancá-los, ou de lutas contra oponentes de unhas bem utilizadas.

- Muitos procuram por uma sabedoria que não podem ter e tantos se perdem nos caminhos de P’o. Se seu Hun não tiver força, tudo que lhe espera é a “morte final”, como vocês, gweilo, chamam.

- Aqueles que sucumbem ao caminho de P’o é quem pretendemos enfrentar, no entanto, precisamos de conhecimento para tal.

- Ha! A ignorância de um cataio só pode ser medida pela sua idade!

- Por favor, kuei-jin, seja razoável.

- Se o que chama “ser razoável” é mandá-los para a forca, pois bem. Siga até o coração de Chinatown. Tenha cuidado com os youkai que vivem por ali, com sorte não vão encontrar nenhum hoje. Há uma casa abandonada em estilo ei, se souber ver, verá! Agora saiam da minha loja, estão atrapalhando a clientela.

Por mais que olhassem, o lugar estava vazio, mas nada impedia que o kuei-jin estivesse se referindo a algo que eles não podiam ver, ou decorresse de alguma loucura dele.

Os três saíram e seguiram pela noite. Quando chegaram ao centro de Chinatown se depararam com nada mais que construções com detalhes orientais, uma delas até possuía um laguinho de carpas na entrada, o que chamava um pouco a atenção.

- O que ele quis dizer com estilo ei? – Alexander disse sua primeira frase desde que entraram no bairro.

- Hmm... Creio que seja estilo britânico.

- Como? Britânico?

- Sim.

- E como acharemos uma casa britãnica em Chinatown? Está louco? Vamos voltar – condenou, Anabelle.

- Ora, não há como receber uma resposta direta de um kuei-jin, da mesma forma que não há resposta direta de um oráculo!

- E que diabos é um kuei-jin, aquele cara parecia perigoso, de certa forma – questionou, Alexander.

- Kuei-jin é um... Hmmm... “Vampiro do oriente”, ou algo assim. Eles nos chamam de cataios.

Alexander e Anabelle ficaram perplexos com a novidade, isso colocava em dúvida a veracidade da teoria do Pai Sombrio, mas não era hora para pensar nestas coisas e eles preferiram entender que vampiro era só uma designação forçada pela falta de termos para traduzir aquele vocábulo específico.

De certa forma, Alexander sentiu-se menos ignorante, uma vez que Anabelle também não conhecia este lado das conexões noturnas, entretanto não pôde se vangloriar por muito tempo, pois outra coisa atraira sua atenção. A imagem de Afif ondulava outra vez, mas ele não parecia tentar se transformar em algo, mas ponderava sobre onde deveria ser a residência. Tomando um novo ângulo, o Toreador percebeu que o garoto não era a única coisa que ondulava, mas a construção com o lago também parecia irregular e, de alguma forma, emanava uma espécie de aura que ele não conseguia distinguir.

- Ei, vocês estão vendo algo de errado com aquela casa?

Ao questionamento, os outros dois pareciam um tanto incrédulos, mas então algo ocorreu a Afif:

- Claro, como não pensei nisso antes! Uma ilusão! Não há como ver através dela se for muito forte, mas é possível detectá-la após algumas evidências.

- Sim, evidências que apenas alguns de nossa espécie conseguem decifrar após muito estudo – ressaltou Anabelle.

- Ou que alguns de nós herdam de seus Senhores e acabam usando em momentos aleatórios – Afif encarava Alexander com um brilho no olhar –, como quando se deparam com coisas sobrenaturais muito poderosas, a ponto de fazer o poder ebulir de sua vitae!

Anabelle juntou-se a Afif para encarar o Toreador que parecia ser o único a não compreender o comentário, mas não se importou, estava acostumando à ignorância. Entretanto, parecia ter descoberto o segredo por trás do mistério da construção e se sentiu satisfeito consigo mesmo.

Após alguma investigação por parte do Setita, os três bateram à porta da casa. Após alguns minutos de espera, a porta se abriu sozinha e eles entraram na sala escura para, então, ouvir o clique da porta se fechando atrás de si.

Ao estender a mão para reabrir a maçaneta, Alexander reparou que a porta não estava mais lá e, para piorar, a sala também havia se modificado. Eles estavam em um cômodo de pedras que lembrava calabouços de castelos em filmes hollywoodianos, iluminado por archotes flamejantes e culminando em um corredor.

Sem muita escolha, seguiram pelo caminho que o que quer que fosse tinha escolhido para eles, até chegar em uma espécie de cruzamento, onde o caminho se dividia em três. Afif se precipitou para a esquerda e a passagem se fechou atrás dele. Com um aperto no coração, Alexander se separou de Anabelle, seguindo reto e a Lasombra projetou sua cadeira de rodas para o caminho da direita.

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