Um borrão de dor tirava Alexander das últimas cenas de seu pesadelo, no qual Alessa era levada novamente por aqueles dedos tarantulares que o alejaram. Correndo os olhos pelo local, pode perceber que estava mesmo em um “cômodo” – se é que poderia chamar assim – dos esgotos de New York. As paredes eram sujas e o mau cheiro lembrava o odor cadavérico de seu perseguidor, causando arrepios na memória. As sombras se misturavam ao frio e as paredes de pedra davam uma atmosfera de castelo da Idade Média ao local, mas seria algum que, vitimado pela peste, deixara apenas os criados mais decadentes e tragara todas as riquezas.
A uma segunda olhada no local, encontrava-se Ezequiel a um canto, mexendo em um tipo de pia branca encardida. Fazia barulho de metal sob a água corrente e ele se virou ao terminar:
- Oh! Vejo que acordou... Como se sente?
- Estou – ele se interrompeu com uma exclamação de dor, não havia percebido, mas pelos longos cortes em seu joelho, o músculo fora replantado de uma forma bem arcaica enquanto ele dormia – o que fez comigo?
- Bem, os Tzimisce conseguem brincar com nossos corpos como crianças modelando massinha, mas para desfazer esse tipo de estrago, nem a medicina pode fazer nada. Você preferia ficar aleijado para sempre? Bem, é fato que um ser humano normal ficaria, mas você pode se regenerar, isto é... Bem – o velhote atirou uma bolsa de sangue sobre o estofado puído que suportava seu convidado – beba e poderá se curar, mas não desperdice, não é tão fácil de conseguir quanto parece.
- Obrigado... eu acho. É um tanto asqueroso... não há outra forma?
O anfitrião franziu o cenho enrugado e perdeu a cordialidade, o que parecia estar incomodando há um bom tempo, agindo de forma mais natural:
- Deixe de viadagem! Beba ou morra!
Ele obedeceu à ríspida represália, cravando seus dentes no plástico e sugando, desajeitado, o líquido vermelho que o encheu de vida e força. Novamente fez circular sua vitae e os cortes da perna se fecharam, bem como a cirurgia resumida dera resultados e ele agora pudera mover sua perna quase tão bem quanto antes, apesar de ainda latejar um bocado.
- Precisamos dar um jeito nisso – concluiu Alexander após um período em que ambos fizeram muito silêncio e apenas o barulho de ratos e baratas pôde ser ouvido.
- Valendo! O jovem Toreador pode faturar quinhentas doletas se adivinhar mais uma pergunta e o tema, novamente, é o óbvio – debochou.
- Então por que não me dá algumas explicações? Eu é que sou novo aqui, não sei como essas coisas funcionam – ele se frustrou mais ainda em sua incapacidade e pareceu murchar.
- Ta bom, desculpa, mas tem de entender, acordei há um bom tempo e fiquei pensando desde então no que poderia ser feito e não cheguei a conclusão alguma. Afinal, você dormiu como um gárgula! São dez horas e há três não consigo encontrar uma solução plausível... Se apenas meu mentor respondesse meu chamado – ele olhou tristemente para um celular jogado ao canto.
- Seu mentor?
- Sim. Todos temos nosso mentor. Você tinha aquela bonequinha. Geralmente é quem o criou, ou alguém que “o pegou para criar”. Alguns não tem tanta sorte – sua expressão se esvaziou e ele parecia triste, agora.
- Entendo.
- Slash tem cuidado de mim, mas não responde e isso me preocupa!
- Como era o nome dele?
- Slash?
- Não... era... algo com “J”?
- Joe – o rosto velho ficou pasmo e os olhos vidraram atrás dos óculos fundo-de-garrafa, como quem arquiteta um plano em instantes – é claro, por que não pensei nisso antes?
- Sim, Joe, ele é... hmm... xerife, certo? Podemos pedir a ele por um mandato de busca ou algo do gênero. Acionar a polícia, talvez?
- Não, tolo, nossos sistemas são mais eficazes e não se equivocam com os humanos. Venha comigo, sei onde podemos encontrá-lo.
Alexander seguiu Ezequiel pelo labirinto de esgotos. Certamente estaria perdido se não fosse pelo guia que enveredava por diferentes túneis, às vezes andando em círculos para chegar a um lugar diferente, utilizando passagens mais favoráveis, do tipo que não atiçavam o estranho senso de perigo à que o jovem vampiro começava a se acostumar.
Após uma longa caminhada, saíram por um bueiro que desembocava em uma ruela de aspecto perigoso, provavelmente em algum gueto do Brooklin. As paredes de tijolos pichadas e as ruas sujas, um silêncio perturbador, quebrado vez ou outra por latidos esparsos de cães de grande porte.
- Por aqui – guinchou o guia.
Eles seguiram mais a fundo, até encontrar um tipo de “clareira” naquela selva de prédios em sua trilha de becos. Vários elementos mal-encarados se reuniam em torno de um tambor que crepitava, falando alto, fumando, alguns injetando droga, outros se agarrando sem o menor pudor. A maioria se vestia de um jeito meio punk, do tipo “mamãe-sou-rebelde”, não dava para levar muito a sério, pois grande parte parecia adolescentes super-hipertrofiados.
- Saudações!
A voz profunda que imergiu, calando a balburdia, vinha de um canto mal iluminado, mais precisamente, de uma mancha negra que se precipitava para a luz do fogo. Joe recebia os convidados que ninguém parecera notar, de fato, Alexander foi perceber depois que eles realmente não estavam, mas no instante seguinte, estavam. Talvez aquilo fosse mais uma das habilidades estranhas dos vampiros, pois agora todos os notavam, mas Ezequiel não pareceu se importar e respondeu à boa vinda:
- Com sua permissão, Xerife.
- A que devemos sua visita?
- Na madrugada de ontem, tirei este aqui das mãos de dois sabás. Bem, eles não estavam interessados na criança, mas em sua criadora. Eles a levaram.
- Levaram quem?
- Alessa – Alexander interveio com ar sombrio e tímido, não conseguia esconder sua tristeza.
- A primogênita Toreador de New York – urrou –, ultrajante! Por que não veio me dizer isso antes?
- O sol – respondeu Ezequiel entre dentes.
- Que se foda o sol! Onde está Slash em uma hora dessas?
- Ele... não responde – ele se encolheu ao responder, como se esperasse uma surra.
- Como?
- Deve estar ocupado, creio eu.
Naquele momento o telefone do xerife tocou, ele estava colérico, portanto, colocou no viva-voz e esperou que o outro lado iniciasse a conversa.
- Joe, responda, rápido – a voz parecia aflita e ligeiramente familiar.
- Majestade?
- Sim, sou eu. O Sabá está atacando! Estou muito fraco para reagir – algo pareceu quebrar ao fundo – eles querem a primogêne.
A carranca de Joe empalideceu o máximo que a melanina de sua pele permitia, aquilo parecia grande... e perigoso.
- Me diga onde e eu irei nesse instante!
- Tarde demais, fofura – respondeu uma voz de deboche feminina do outro lado.
- Quem?
- O serviço de atendimento ao lacaio informa que o príncipe teve seu cetro enfiado onde ele bem merecia. E que esta cidade, em breve, pertencerá apenas ao Sabá! Caos e amor, baby!
O silêncio era geral. Os Brujah e os outros dois vampiros imobilizados. Joe estava boquiaberto, porém mudo. Até mesmo o fogo pareceu se curvar à crise e apagou. Tudo que se podia escutar era o celular emitindo um som contínuo com a queda da linha, um mal augúrio, como o som do medidor de batimentos cardíacos que marca o fim de uma vida no hospital, este som poderia representar o fim de muito mais.
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