SEIS

- Acho melhor voltarem para onde quer que tenham vindo – aconselhou o xerife aos dois visitantes.

- Não – Alexander desafiava a autoridade veemente – não desistirei de procurar por Alessa, não importa o que me digam!

- Rapazote, está fora de si – ele ameaçou.

Nesse instante, algo desfocou a mente do Toreador. Não era por medo do Brujah intimidador, mas por um instante, sentia-se compelido a seguir para o sul, sabia que era lá que sua amada vampireza se encontrava e mal podia aguardar para se reunir a ela. Entretanto, o lampejo fugaz desapareceu tão instantaneamente quanto surgiu, ele apenas tinha uma mera noção e então entrecortou a conversa:

- Sul!

- O quê?

- Alessa está indo para o sul, posso sentir – ele explicou à interjeição incrédula.

- Garoto, você está fascinado pelo laço de sangue. Esqueça dela, temos outras prioridades. Se quer mesmo ser útil, venha comigo.

Eles se dirigiram a uma moto e, vendo que a situação se complicaria ainda mais, Ezequiel se despediu dos dois, partindo para os esgotos, novamente.

O Brujah e o Toreador seguiram para a West 53 Street, ironicamente, onde toda aquela turbulência começou. A moto fora estacionada de qualquer jeito e o xerife se moveu para o lado oposto da rua, para um prédio de vidro fumê cujo número era 666. Ele parou à porta e gritou:

- Corina! Quero falar contigo e é urgente!

Não houve resposta, de imediato. O vampiro de ébano estava trêmulo de raiva e ânsia, sua cidade estava para ser tomada. Passados alguns instantes, ele se acalmou, porém, uma inquietação veio do outro lado da porta: um homem vinha às pressas – reconhecido como Horacius, apresentado pelos Tremere no Elísio – e parecia estar fugindo de algo.

Quando a porta se abriu, Horacius parecia ignorar a presença do xerife e olhava para dentro esperançoso e pareceu feliz ao avistar uma mulher de estatura baixa, aparentemente mais velha que a maioria dos vampiros, mas ainda sim, bela, mancando até a porta cheia de escoriações e outras marcas de batalha.

- Corina, o que significa – o xerife começou, mas pareceu entender e fez uma pausa arrastada antes de concluir – isso?

Era difícil de ver, ainda mais porque o prédio estava escuro. Todas as luzes pareciam estar apagadas e a mulher era iluminada apenas pela luz dos postes e faroletes vindas da rua. Quando faltava apenas alguns metros para que ela alcançasse a saída, um filete vermelho apareceu em seu pescoço. Ela levantou as mãos em desespero e seus olhos lacrimejaram o grosso fluido vital escarlate, as pupilas reviraram para cima e, devido à expressão, pareceu asfixiar. No instante seguinte, seus pés vacilaram na corrida e tropeçaram sobre si mesmos, seu corpo tombou e, no instante em que tocou o chão, sua cabeça rolou para longe, soltando jorros de vitae.

Alexander forçou os olhos e domou seu estômago, se negando a fraquejar naquela situação e examinar o que tinha acontecido. Foi quando reparou um contorno de alguma coisa sobre o cadáver. As marcas no chão denunciavam. O que quer que fosse, tinha decapitado a Tremere e agora lambia sua vitae silenciosamente.

- Mas que diabos!

O xerife exclamou, olhando de esguelha para Horacius, sem entender. O Brujah, apesar de mais velho, não parecia ver o que estava bem à sua frente. Talvez cada vampiro tivesse suas peculiaridades, então. Do outro lado, o Toreador reagiu, saindo do choque:

- Tem algo sobre o corpo, não sei o que é.

- Assamita – irritado, o xerife concluiu entredentes.

Com um golpe rápido de raciocínio, Horacius fora atirado para longe, enquanto o vulto se movia na direção da porta. Os olhos de Joe se injetaram e ele blasfemou antes de exigir:

- Me guie, eu não consigo vê-lo!

- À sua direita – a resposta veio automática.

O vulto se precipitou para Horacius, pelo visto queria completar seu trabalho antes de entrar na dança. Joe percebeu e, como se o mundo deslocasse à sua volta, ele apareceu entre os dois, fazendo com que o inimigo oculto estacasse de surpresa e se contorcesse para amortecer o punho que já estava a meio caminho, tão rápido que mal pode ser visto.

A camuflagem se desfez, revelando um jovem de pele amendoada, típica do Oriente Médio. Ao vê-lo, Alexander se lembrou dos terroristas árabes que passavam na televisão, vez ou outra. Aquele podia muito bem ser um deles, pois seus trajes também remetiam à região, tecidos finos e cor de creme, de modo que adaptariam ao calor intenso e, ao mesmo tempo, serviria de camuflagem nas dunas.

- Repugnante. Como ousa invadir a Capela de New York?!

- O desejo de meu amo, a mim é uma ordem – a resposta veio suave, contrastando com o forte sotaque, formando um inglês quase ininteligível, a despeito da deformidade que englobava a parte do rosto que fora atingida.

Os dois se encararam por alguns instantes, analisando as possibilidades e se estudando. Assamitas não eram de se brincar e o xerife sabia disso, da mesma forma que sua posição impunha algum respeito e mereceria uma estratégia melhor do que um bando de Tremere desprevenidos, ainda sim, Joe respeitava seu adversário pelo feito. Apesar dele parecer muito jovem para a missão, talvez fosse algum teste abominável sobre a coragem do discípulo por seu mestre. Aquele clã tinha essas peculiaridades e um senso moral duvidoso que desafiava a ética vampírica, uma vez que todos eram considerados canibais traidores e traiçoeiros, indígnos de qualquer confiança.

Assim como em filmes de westlening, em um dado momento, os dois se moveram simultaneamente à uma velocidade vertiginosa. O Assamita brandiu suas cimitarras para o xerife que defendeu com uma machete, outrora oculta em seu sobretudo. A defesa gerou um momento em que ambos tinham as mãos ocupadas pelas armas do oponente, então o jovem assassino se aproveitou e cospiu um bocado de vitae ocre e malcheirosa no rosto de seu adversário, provocando um terrível grito.

O próximo movimento definiu a vitória para Joe, mas a um alto custo. Não podendo ver direito, desferiu golpes velozes com sua machete que paralizaram o adversário. Alguns breves segundos depois, o tempo lembrou-se de correr e a vitae começava a se espalhar dos mais de vinte cortes quase simultâneos que ele havia causado no assassino. Um último soco serviu para esmagar-lhe o crânio e evitar futuros imprevistos.

Com a luta decidida, os dois neófitos se aproximaram do vitorioso cujo rosto agora parecia com um boneco de plástico deixado muito próximo ao fogo, era como se aquela vitae fosse feita de ácido sulfídrico. Quando a atenção se desviou da deformidade, o pânico tomou suas feições, pois enterrada na lateral do tórax do xerife estava uma das cimitarras douradas que o assassino usara.

Apesar da derrota, o Assamita havia cumprido com seu dever. Destruiu todos os Tremere relevantes de New York e aleijou o xerife de modo que a cidade estaria indefesa para futuras investidas do Sabá.

Joe retirou penosamente a lâmina de suas costelas e se sentou na calçada, escorado na edificação. Encarando Horacius, choramingou enquanto tentava se curar:

- Como?

- Elias Clint – informou, o pesar tomando sua voz – nos traiu em troca do conhecimento diabólico do Sabá.

- Taumaturgia negra – afirmou Joe e Horacius assentiu.

- O que significa isso?

Alexander interrompeu os meios entendimentos dos dois que o encararam incrédulos, mas logo se lembraram o motivo de sua ignorância. Ele seria um bibelô da Toreador, nada mais, não precisava se enveredar naquele universo mundano e conflituoso, bem, não até a crise.

- Significa – o xerife arfou pesaroso – que a cidade está desprotegida. Nosso príncipe está desaparecido, a Capela Tremere sucumbiu e este xerife desonroso e inútil mal pôde enfrentar um bebê – concluiu frustrado.

- E se chorar fosse resolver tudo o mundo poderia se acabar em lágrimas.

Uma voz doce e conhecida soou por entre os carros. Ao desviarem suas atenções para a rua, avistaram a menina que Alexander ajudara no dia do Elísio, Anabelle.

- O que uma pirralha como você pode falar sobre isso? Aposto que nem largou as fraldas – Joe descontava sua raiva nas palavras, como uma criança mimada o faria.

- Nem todos temos a idade que aparentamos. E é bom vê-lo vivo, jovem Toreador, apesar de que deveria reavaliar suas companhias – ela se dirigiu a Alexander, deixando a cara de Joe com um azedume que a deformava ainda mais. – Se quiserem vir comigo, estou de carro, precisamos juntar as forças que pudermos para proteger nossa cidade.

- Quem é você para falar do que é melhor para a cidade, sua antitribuzinha asquerosa. Nós apenas as acolhemos por ordem do príncipe, sei lá que tipo de relacionamento ele tinha com sua mentora, mas em sua ausência, eu sou a lei aqui e, definitivamente, não confio em vocês Lassombra!

Era evidente o rancor e o preconceito na explosão do xerife, mas Anabelle não pareceu se importar. Ao contrário, ela deu de ombros e entrou no carro. Lançando uma última olhada antes de fechar o vidro ela alertou:

- Eu realmente acho que você deveria escolher melhor suas companhias, jovem Toreador.

As palavras, ditas por aquela voz hipnotizante, serviram de gatilho e Alexander seguiu para a limusine e se reuniu com a garota no banco traseiro. Desde a primeira vez que se viram, ele ficou fascinado pela beleza daquela voz de soprano infantil perfeita, mas não era só isso. Naquele momento, ela parecia a mais ponderada, a voz da razão, uma maturidade infinita num corpo tão diminuto, era contraditório, mas seus instintos apontavam que aquela seria a decisão certa e, de alguma forma, ela o ajudaria a encontrar Alessa.

Enquanto Joe e Horacius seguiram de moto na direção oposta, o primeiro blasfemando alto e amaldiçoando a falta de perspectiva e ignorância do Toreador; a limusine percorria Manhattam até o refúgio das antitribu.

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