OITO

O espanto do rapaz e sua apreensão para que a jovem dama prosseguisse com sua história faziam com que ele prendesse a respiração e a encarasse sedento por uma explicação, no entanto, ela se limitou a voltar à sua usual falta de expressão e mudar para um assunto que, para ela, seria mais relevante:

- Está tarde.

- Ainda falta um bocado para o nascer do sol, temos tempo.

- Não é isso. Samanta não voltou. Estou preocupada.

Anabelle se dirigiu a uma televisão de 14” no canto da sala, ligou e pressionou alguns botões do console. Alexander percebeu se tratar do circuito interno de vigilância. Ela passava apressada pelos canais, até que apareceu a garagem.

- O carro ainda está lá. Por favor, me acompanhe, será mais rápido assim.

Ele obedeceu e guiou-a até o lugar, seguindo suas indicações. A ânsia fazia sua vitae circular. Se ainda fosse humano, teria de limpar o suor de preocupação que escorreria por seu rosto, mas naquelea forma, era como se seus fluidos corporais tivessem secado para sempre. A pressa foi lhe consumindo e um mau pressentimento, quando percebeu, já estava correndo, as rodas da cadeira de Anabelle rugiam contra o atrito do carpete, denunciando a velocidade, seus cabelos voavam intensamente e ela mesma não parecia se incomodar, era quase como se tranquilizasse de chegar lá mais rápido.

Os cômodos passavam num tipo de câmera lenta, mas a velocidade era fatidicamente alta. Seriam os olhos de vampiro ou outra coisa? Aquela agitação na vitae foi se acalmando à medida que a ânsia do mau presságio lhe consumia, era como uma náusea. A diminuição da resistência do ar indicava que eles haviam parado e quando tomou consciência do ambiente, estavam a alguns metros de distância do vidro fumê da porta do motorista de Samanta.

Anabelle se desvencilhou de seu guia e abriu a porta com uma força que poderia arrancá-la. Era de se espantar que aquela garotinha pudesse ser tão terrível. Um olhar doentio consumiu suas feições e ela ameaçou chorar de ódio, mas antes correu à porta do compartimento traseiro da limusine.

Quando a garota liberou o ângulo de visão, revelou o corpo do motorista ainda segurando o volante. Apesar dos olhos parecerem extasiados de prazer, suas mãos tinham os dedos colados, como se toda a pele fosse uma coisa só, abraçando o volante para jamais soltar. Sua caixa toráxica estava completamente aberta, exibindo os órgãos imóveis, apesar de ligeiramente modelados, passando a idéia de um kit de médico de brinquedo muito mal projetado. A coluna fora fixada no banco, assim como a nuca, amarradas em nós de carne e ossos contra as ferragens do assento. A boca se contorcia em um sorriso doente e os olhos vidrados virados para cima.

A cena era mórbida, mas as feições daquele rosto experimentaram prazer imenso antes da morte. Seria um masoquista? Alexander não conseguia parar de encarar aquele corpo intrigante, apesar do aumento de sua náusea, ele sabia que algo estava para acontecer.

Encarando aquela cena, vislumbrou rapidamente algo que parecia a sombra de uma mão sobre o pescoço do chofer, mas com uma segunda olhada, não havia nada lá. Então, percebeu que os olhos estavam ressecados e piscou, por um segundo ou menos, ao abrir os olhos, pôde ver novamente uma sombra de mão no pescoço, como se tivesse marcas de enforcamento, mas tão brevemente sumira outra vez. Por fim, sua interpretação foi interrompida por um cortante grito de agonia vindo do compartimento trazeiro: era Anabelle.

O jovem Toreador correu até a porta, esperando encontrar mais corpos e o agressor, talvez, mas tudo o que viu foi a garotinha debruçada no carpete do chassi, sobre uma poça vermelha que era rapidamente absorvida pelo tecido macio.

- Eles a levaram – ela gritou – levaram Samanta!

Era de cortar o coração. Sua linda voz definhava em gritos angustiantes, seu belo rosto apertado contra o chão, borrado pelo rubor sanguinolento que parecia aumentar o fluxo e, olhando mais de perto, vertia de seus olhos. A poça era formada pela vitae que escorria de seus olhos incosoláveis. Lágrimas de sangue brotavam entre soluços e sua palidez aumentava.

- Maldito Sabá – ela tentou um novo grito, mas a voz morreu em algum lugar do percurso e ela desmaiou.

Algumas horas mais tarde, os olhos de Anabelle começavam a se abrir novamente. Ela devia estar em sua cama ou era o que lhe parecia. Seus ouvidos capitavam uma linda melodia soando quase como um sussurro ao seu ouvido, na voz grave de um barítono:

“Il dolce suono mi colpi di sua voce, ah, quella voce, m’é qui nel cor discesa. Anabelle, io ti son reso. Anabelle, infanta mia. Si, ti son reso. Fuggita io son da’toui nemeci. Un gelo mi serpeggia nel sen, trema ogni fibra, vacilla it pie. Presso la fonte meco t’assidi alquanto, si, presso la fonte meco t’assidi”.*

A isto se seguiu um vocalize decrescente e ela percebeu se tratar da aria Il dolce suono, de Gaetano Donizetti, apesar de algumas modificações na letra e que originalmente seria cantada por uma mulher de timbre soprano. A nova letra dizia respeito a si e algo a incomodou nisso. Sentia, pela primeira vez, aceitação de alguém que não fosse Samanta.

A garota se moveu, exausta, e o pianíssimo chegou ao ponto da cadência de encontrar o silêncio final, uma mão alisou seus cabelos e a voz retornou, mas falando desta vez:

- Durma, pequenina, o sol já desponta. Quando chegar a noite, será nossa hora. Mas por enquanto, descanse e recupere suas forças.

Anabelle permitiu-se fechar os olhos e sentiu um beijo em sua testa. O incômodo voltou, lembrou-se de Samanta, a única que a acolhera e respeitara em toda sua vida. Desde que viveu enferma em um orfanato, jamais sentiu o carinho de outra pessoa, apenas contatos indiretos e “profissionais”.

Ela sabia que o Toreador estava retribuindo sua hospitalidade, mas algo fazia com que ela quisesse acreditar que havia ternura naquela ação, algo que superava o dever gerado pelo laço de sangue com sua mestra. Ela se sentiu ligada expontaneamente a outra pessoa pela primeira vez e estava relutantemente feliz. Contudo, a exaustão foi mais forte e ela adormeceu enquanto ele afagava as mechas lisas de seu longo cabelo azevinho.


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* Tradução livre, minha: “O doce som de sua voz, eu escuto, ah, aquela voz, tão profundamente imersa em meu coração. Anabelle, eu te sou devoto. Anabelle, minha infanta. Sim, a ti sou devoto. Escapei de seus inimigos. Um arrepio toma meu peito, treme cada fibra de meu ser, meus pés vacilam. Sente-se comigo à fonte um pouco, sim, sente-se comigo à fonte”.


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