TRÊS

Aos poucos a sala voltava a tomar forma, saindo do flashback que distraía sua atenção, Alexander ouviu a doce voz de Alessa ao seu ouvido:

- Vê? Não acredito como poderia se esquecer da noite que me conheceu, apesar de que eu mesma o conheço a mais tempo do que poderia imaginar – ela estava com os braços enroscados em seu pescoço e falava a seu ouvido, de modo que pareciam mais um casal.

O príncipe parecia ter retomado o assunto, dado o tempo de choque em que não era possível saber se ele dissera algo mais ou se o mundo acabara, a realidade era algo muito distante da experiência que tecia aquele ambiente e tudo era igualmente inacreditável:

- Nós juntos formamos a Camarilla, a tentativa de nossa espécie de viver em sociedade e de forma racional. Portanto há uma série de regras a se seguir. Primeiramente, respeitem a máscara – ele disse com uma autoridade severa – esse é o motivo de termos sobrevivido aos anos inquisitórios e abafarmos os relatos até que as pessoas não acreditassem mais nas lendas. Em outras palavras: não vos permitam serem descobertos pelos humanos, não usem seus dons na frente deles e nem se alimentem em público. Fui claro?

A platéia fez um consentimento geral de forma humilde e ele continuou:

- Respeitem à máscara e também aos seus senhores. Respeitem os humanos, eles devem ser tratados com cortesia, uma vez que sem eles não vivemos, bem como não invadam o território de caça de outros de nossa espécie. Por último e mais importante, não se alimentem de seus semelhantes, não somos canibais, e, terminantemente, não se envolvam com o Sabá! Eles são uma organização criminosa poderosa, cruel e insana que quere quebrar a máscara e destruir tudo aquilo que lutamos para construir nesses últimos séculos!

Ele fez uma pausa e expressou extremo rancor antes de prosseguir:

- Essas são as regras de nossa sociedade, aqueles que a violarem serão julgados. Todos os clãs que compõem a Camarilla se comprometeram em segui-las, os que deserdam seus clãs são chamados antitribu e são considerados inimigos. Das 13 famílias descendentes de Caim, quatro são independentes, consideradas neutras, duas se devotaram ao Sabá, e as outras sete compõem a Camarilla, mas ultimamente perdemos muitos dos nossos para o outro lado. Portanto, neófitos Brujah, Gangrel, Nosferatu, Malkaviano, Tremere, Toreador, Ventrue e antitribu que se juntaram à nossa causa, jurem fidelidade aos ideais da Camarilla e boa eternidade a todos.

Houve uma curta salva de aplausos tímidos, rompida por um brutamontes pigarreando na ala das pessoas mais simples. Era um homem negro, alto e musculoso. Possuía algumas cicatrizes visíveis, mesmo usando um sobretudo, além de algumas marcas esbranquiçadas pelo rosto que, por efeito, dava a impressão de uma carranca de navio indígena. Quando todos se aquietaram, ele prosseguiu:

- Bem, já que vossa alteza deu as boas vindas, acho que é hora de começarmos as apresentações por aqui. Todos os neófitos serão devidamente apresentados, mas antes gostaria de me introduzir. Sou o xerife de New York, Joe Sicada, o responsável por manter as leis da máscara – ele fez uma pausa e o canto de sua boca se contorceu num sorriso macabro, acentuando sua carranca – e todos vocês andando na linha!

Ao terminar sua apresentação, ele acenou com o polegar para que um de seus companheiros se levantasse, então ele anunciou:

- Esse é Richard Johnson, o mais novo membro do clã Brujah, peço a benção de vossa majestade para seu ingresso em nossa sociedade.

- Eu o concedo, caro Joe – ele assentiu, brando, finalmente e prosseguiu, colocando a mão no ombro de um dos três garotos que o ladeava – e este é Vitas, meu novo filho Ventrue.

Alessa se assentiu de sua vez e continuou:

- Este é Alexander Ferren, o novo orgulho da família Toreador. E meu estimado affair – acrescentou para si.

- Com muita graça, eu o recebo em meus domínios.

As três pessoas elegantes de óculos apresentaram o que parecia ser o mais velho, um homem de meia-idade:

- Este é Horacius Von Rerchten, aluno dos Tremere.

- Bem recebo seu ingresso.

- Esta é Kamama Galilahi, da tribo Cherokee de Terminus, digo, Atlanta, pródiga Gangrel – um homem maltrapilho apresentava uma garota de pele amendoada e cabelos negros em tranças, olhos verde-outono, parecia uma princesa indígena em trajes novaiorquinos simples.

- Boas vindas à nossa ilha.

- Os Malkavianos se abstém de sua cria, não é o momento, algo nos diz – alertou um homem que se ocultava entre um chapéu coco e um sobretudo cinza.

- O jovem Nosferatu é Ezequiel Cambridge – o homem que anteriormente tentava ocultar seu rosto com um lenço indicou um velho da casa dos 60 anos às suas costas, de jovem ele nada tinha, era um contraste com os demais. A este, o príncipe só assentiu com a cabeça, com um ligeiro ar de nojo.

Por fim, a patrona de Anabelle tomou a palavra:

- Conforme nosso acordo, a família Lassombra não produziu sucessores e nem o fará, enquanto não for necessário.

- Fico feliz em ver que honrou com sua palavra, Samanta – à menção íntima, a rainha cravou as unhas em sua poltrona, arrancando um pouco do estofado por baixo do braço, o que seria imperceptível para quem não estivesse a seu lado.

Após a apresentação, alguns avisos e cortejos e todos estavam livres para interagir uns com os outros novamente. Quando a noite chegava ao fim, todos estavam de saída, à porta do museu, os Tremere atravessaram a rua para o número 666 logo em frente e sumiram pela porta fume, os Brujah pegaram suas motos e os poucos Gangrel se apinharam em uma perua hippie. Aqueles que aparentavam uma classe mais elevada entravam em suas limusines e a BMW de Alessa a esperava.

- Você vem comigo, meu querido – disse ela em tom de ordem, de modo que Alexander não pode recusar.

Os Toreador entraram no carro e seguiram até a ponta norte de Manhatam. Havia algo estranho no ar, um cheiro ocre, mas ambos o ignoraram em seu caminho, afinal, o que quer que fosse, não era importante. Só lhes interessava sair logo dali e poder desfrutar da companhia mútua, fortalecida pelo laço entre cria e criatura, provindo do abraço.

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