O carro seguiu noite a dentro e algumas horas de escuridão já haviam passado. Pelo que lhe parecia, Alexander teria de esperar o pôr-do-sol no refúgio de sua anfitriã, caso não quisesse uma morte dolorosa pela luz do astro rei.
Era estranho que uma mansão tão despendiosa como aquela passasse desapercebida, mas, afinal, era Manhattam. Parecia algo obscuro saído de “A Família Addams”, mas ainda tinha beleza em seu estilo gótico, com leves toques de modernismo. Fato era que a residência se fazia se sentir confortável quaisquer nobres do século XVI que, por ventura, fossem transportados aos dias atuais, mas sem o assombro de construir um castelo em plena New York.
Ao entrar, entendia-se que a discrepância temporal era ainda maior. Móveis coloniais suportavam avançados computadores e sistemas de segurança de última geração vigiavam a casa. Câmeras com sensores de movimento os acompanhavam à medida que avançavam enquanto Anabelle indicava o caminho e Alexander gentilmente guiava sua cadeira-de-roda.
Quando finalmente chegaram ao saguão central, sem janelas e com isolamento acústico que daria inveja a qualquer anfiteatro, se depararam com Samanta, que os aguardava de forma pomposa e sedutora. O avantajado quadril que remetia à sua origem espanhola, juntamente com um vestido negro-piche que contrastava sua pele branca e atenuava suas curvas, exercia a função de espartilho e projetava seus seios de forma deslumbrante, para suportar o pesado colar de ônix que ornava seu pescoço. As mãos repousavam sobre as longas pernas alvas e impecáveis, cruzadas uma sobre a outra, enquanto ela esperava naquela poltrona de camurça vermelha. Tudo isso encimado por um olhar profundo de olhos que pareciam buracos negros e que ameaçavam tragar tudo naquela sala para si. Com toda a certeza, aquela energia de atração explicava, Samanta era a Carmen que Bizet teria idealizado nos dias atuais.
- O que traze a mim, minha querida? – ela perguntou com sua voz poderosa de fado-flamenco com a qual poderia arrancar suspiros dos jovens e ordenar aos mais velhos.
- Este cavalheiro é Alexander, señora – Anabelle respondeu com tamanha subserviência que seria difícil imaginá-la novamente desafiando a autoridade do xerife.
- Ah, sim, muito me recorda vossas feições. Sois o filho Toreador.
- Señora, eles a levaram, Alessa.
- A ela também?
- Sim, e assassinaram Corina.
- Céus. Que Deus tenha misericórdia de nossa insignificância. A Toreador, o Ventrue e a Tremere foram levados, nossa cidade está desprotegida sem um príncipe...
- E com um xerife aleijado – completou.
- Certamente, o Brujah será mais um peso do que ajuda, neste momento. O Gangrel, creio, não se encontra, devido à sua natureza selvagem. O Nosferatu, o Malkaviano e eu parecemos ser os únicos que escaparam desta abominável caçada de sangue.
- Eu não sei quem é o Nosferatu – Alexander falou timidamente –, mas eles também estão em perdas... Madame – acrescentou.
- Seu nome é Slash, conheces?
- Sim, ele tem cuidado de Ezequiel e sumiu há um tempo.
- Então isso nos deixa com maiores problemas. Uma vez que o Gangrel não será fácil de se rastrear, o próximo alvo será o Malkaviano e, em seguida, devem preparar algo especial para mim, já que sou uma traidora direta do clã das sombras.
- Traidora – a palavra escapou por entre os lábios de Alexander.
- Sim, meu jovem, por quê achas que nos chamam de antitribu? Mera casualidade? Não, somos aqueles que investimos contra o sangue de nosso sangue, é a essência dos cainitas, não é mesmo? Trair seus irmãos em prol e um bem maior, assim como o Pai Sombrio, ele próprio.
- “Pai Sombrio”?
- Às vezes esqueço como os jovens tem perguntas – ela deixou um riso sair, mas escondendo a pitada de desdém, sobreposta por sua ternura quase materna ao responder – vejas bem. Somos criaturas da noite. Há escritos muito antigos e desejados que falam de nossa origem, mas que ninguém sabe ao certo. Acreditamos em nossa descendência por Cain, aquele que matou Abel, na bíblia e, assim, foi exilado e condenado à noite eterna.
- Isso é... incrível – Alexander estava boquiaberto.
- Um Nosferatu me contou que Lilith teria ensinado magika a Cain, que passou aos filhos. Sobrevivemos ao dilúvio, claro, todas as 13 famílias. Mas por divergências, acabamos com algumas brigas internas. Alguns séculos atrás, a Camarilla foi fundada para reunir aqueles mais ponderados entre nós e nos ocultar das caçadas humanas, vivermos no mais próximo do que poderia ser uma harmonia com o resto do mundo. Mas o Sabá pensa diferente e tudo que querem é um reino de terror. Por isso eu e Anabelle largamos aquela seita dos diabos.
- Entendo. Bem, pelo menos seus motivos. A história é um tanto que informação demasiada para deglutir.
- Nem os mais velhos tem certeza. Eu acredito que Deus tenha um propósito para todas as coisas, mesmo aquelas que são malígnas por essência. Entretanto, agora não é o momento para meus devaneios. Fiquem aqui, os dois, eu irei tratar de alguns assuntos e de nossa segurança.
Samanta saiu rapidamente pela direção que eles vieram. Alexander dirigiu a cadeira-de-roda de Anabelle até as poltronas e esta fez sinal para que ele se sentasse. Com a certeza de que todos estavam confortáveis, o assunto desagradável retornou aos semblantes sérios, mas o Toreador optou por uma ligeira mudança de assunto, afinal, ele já estava se sentindo um perito em mudanças de humores e como se safar delas.
- Quando nos vimos pela primeira vez, me perdoe, mas eu ouvi o comentário sobre sua idade. Se me permite a indelicadeza, qual a sua idade... er... humana?
- Treze – ela respondeu imediatamente, como se isso não se importasse, seu semblante impassivo e a voz gélida como os polos.
- Isso quer dizer... – ele não precisou terminar a frase, ela confirmava com a cabeça – mas, por quê?
- Eu tinha uma doença – ela pareceu sonhadora, a primeira emoção “humana” que demonstrava – era incurável – ela olhou para as pernas, os lábios se contorcendo em uma linha – bem, ainda é...
- Sinto muito.
- Não sinta – ela se recompôs – eu fiz a escolha. Não de ter a doença – esclaresceu – mas de me tornar uma cainita. Eu não poderia pedir mais nada de minha vida – ou morte -, posso ler todos os livros que quiser agora.
- Você gosta de ler?
- Muito. É minha razão de existir, na verdade. Eu vivia debilitada na cama de um orfanato no interior de New Orleans. O que é um tanto irônico, pois tudo o que sabia sobre vampiros, na época, se reduzia às crônicas de Anne Rice. Nunca conheci meu pai e tudo indica que minha mãe morreu no parto, pois também devia ter uma doença similar. Quando ele surgiu à minha janela naquela noite, eu pensei que fosse o destino, meu Loui – a expressão sonhadora voltou, acompanhada por um brilho nos olhos verdes.
No momento seguinte, a garota murchou, como se voltasse à realidade. Seus longos cabelos castanho-avermelhados, davam-lhe a impressão de uma folha outonal que caíra, perdendo a vida aos poucos, e agora esperava pelo inverno congelante, e emolduravam o verde ressequido de seus olhos. Ela parecia constrangida por falar tanto de si para alguém que mal conhecia, talvez por simpatizar com a situação do pobre diabo, mas o assunto se estendera demais. Entretanto, isso não foi suficiente para refrear as novas perguntas que o jovem fascinado remoía, ardendo, mais ainda, de vontade de continuar ouvindo aquela voz de veludo. Ele estava hipnotizado.
- “Ele”? Não era Samanta?
- Bem, Samanta cuida de mim, mas não foi ela quem me criou.
- Continue a história ou vai me matar por antecipação!
Ela deu um sorriso constrangido e pensou em continuar, desta vez, ela que parecia notar algo no convidado e, se não fosse pela falta de sangue em suas veias, teria ruborizado.
- Seu nome era Carlos. Ele era um cardeal que visitava os orfanatos procurando por crianças que pudesse indicar para seus contatos. Um dia ele foi até mim e se deparou com minhas leituras. Uma criança de 13 anos trancada em um quarto e presa em sua cama, sem televisão – o que era de se esperar há 40 anos – ou rádio, não havia minigames, muito menos internet. Creio que tivesse lido e memorizado as cerca de 30 obras que haviam me doado.
- Espera. Ele era um padre?
- Você vai entender. Bem, ele se interessou por mim, mas eu já estava desiludida, o médico havia me dado no máximo três meses de vida.
- Que doença era, afinal?
- Bem, eu nunca soube, só sei que era degenerativa, um tipo de câncer, talvez. Na época não era muito comum. Mas Carlos disse que não era para me preocupar, desde que eu concordasse, ele me daria o tratamento que iria me curar. A condição é que eu tinha que obedecê-lo dali em diante e me tornar uma serva do Senhor em sua paróquia, mas eu poderia continuar lendo o que eu quisesse, então eu aceitei. Naquela noite, ele entrou pela minha janela e me raptou, no dia seguinte eu fui dada como morta e, de fato, já estava, mas não inteiramente.
- Bem, ainda não entendo como um vampiro pode ser padre.
- Você acha que o homem é o único ser temente a Deus e capaz de adorá-lo?
- Eu só pensei que vampiros odiassem igrejas e religião, ou algo assim.
- Você odeia?
- Não, mas tenho mais de um motivo para ser agnóstico.
- Mas acredita em alguma coisa, e isso já é o suficiente. Deus se manifesta sob várias formas, por isso existem várias religiões. Claro, essa é uma visão um tanto moderna e Samanta não concorda, mas eu penso que cada um pode ter sua religião, desde que, no fundo, acredite em “Deus”.
- E quanto as cruzes, alho... reflexo no espelho?
- A maioria são lendas, a maioria – ela adicionou com um certo pesar.
- Certo. Ah! Mas tem uma brecha na história. Onde entra Samanta?
- Ela me salvou!
- Te salvou?
- Sim. Ela me salvou do Sabá.
- Eles te atacaram depois da sua transformação, assim como fizeram a mim, e levaram seu senhor? – ele lembrou e afundou na poltrona tristemente.
- Não – ela fez uma pausa e suas feições se apertaram, como se ela negasse o que estava para dizer – ela me salvou do meu senhor.
- Seu senhor é um Sabá?
- Sim. Eu sou uma Sabá, teoricamente, e isso não é aceito, sofro preconceito dos anciãos, mas minha identidade é escondida da prole para que eu possa conviver de forma harmoniosa. Por esse motivo, Samanta não pode gerar mais ninguém. Ela fez um acordo com o príncipe ao me resgatar e para que eu pudesse viver, sacrificou seu legado. Todos ficaram felizes, pois a Camarilla teme que os antitribu ganhem força.
- Mas... desculpe ser insolente, mas por que você dentre todo o resto?
- Bem, o meu senhor é o diácono... uma posição de alto presígio do Sabá, Carlos Tiago Borges, irmão de Samanta.
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